Capítulo 184
Derrick
Bati de leve na porta do escritório e entrei sem esperar resposta. Luca estava de costas, encarando o vidro como se o jardim pudesse responder por ele.
— Peguei alguns fios de cabelo da Mia. — falei direto, erguendo o saquinho lacrado. — Da escova e do travesseiro.
Ele virou, assentiu sem surpresa.
— Então vamos acabar com isso. Vou mandar os soldados pegarem o cara. A gente se encontra com ele no hospital da Amercana.
— Sim. Primeiro de tudo, precisamos ter certeza se ele é o genitor. Depois vemos o que fazer. — Minha voz saiu áspera, mas firme.
Luca já tirava o celular do bolso.
— Francis. — disse, quando atendido. — Pega o sujeito na pousada. Sem alarde. Redireciona pro hospital da Amercana. Entrada dos fundos. Eu e o Derrick estaremos lá. … Isso. Rubens coordena com você. — Pausa curta. — Se ele espernear, você corta as pernas do show. Entendeu.
Desligou, pegou o casaco. Eu já estava na porta.
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O corredor do hospital tinha cheiro de desinfetante e gente querendo esquecer onde doía. Entramos por uma porta lateral; a recepcionista mal levantou a cabeça quando viu que era Luca. O mundo tem portas que se abrem pra quem sabe bater.
Francis chegou cinco minutos depois, com o verme dois passos atrás, cabeça baixa, mãos visíveis. Eu reconheci o chapéu nas mãos. O corpo inteiro pediu pra avançar, mas os pés ficaram onde estavam.
— Sala três. — Luca indicou, sem olhar pra mim.
Eu não quis encarar o homem. Era como colocar a cara sobre uma lâmina e pedir pra ela lembrar que sabe cortar. Fiquei do lado de fora, perto do bebedouro, o saquinho com os fios de cabelo queimando minha mão.
Uma enfermeira entrou com a maleta de coleta. Francis, de braços cruzados na porta, não piscava. Rubens apareceu logo depois, conferiu nomes de prontuário, ajeitou a prancheta com a calma.
Entreguei as amostras para Luca, sem tocar em mais nada.
— Da escova e do travesseiro. Peguei o que tinha raiz. — acrescentei, seco.
Ele assentiu e desapareceu atrás da porta. Ouvi o som de luvas estalando, vozes baixas, um “abre a boca” impaciente. O verme tentou dizer algo, o tom de vítima que aprendeu no espelho. Francis respondeu com silêncio e um passo à frente — um tipo de silêncio que ensina educação.
Respirei fundo. Olhei pro relógio. Cada minuto parecia uma provocação.
Luca saiu por fim. Tirou as luvas no corredor, jogou no descarte, e me encarou.
— Sim, chefe. — Francis puxou o homem, que ergueu o rosto só o suficiente pra tentar me mirar. Eu virei o corpo de lado. Não dei nada a ele. Um olhar e eu estouraria aqueles miolos.
Rubens ficou por último, acertando papéis invisíveis, checando o telefone.
— Assim que o laboratório confirmar recebimento, eu aviso. — disse.
— Faz isso. — Luca respondeu.
Saímos do hospital pelo mesmo corredor estreito por onde entramos. Do lado de fora, o céu tinha o peso de uma madrugada que ainda não sabia se vinha chuva. Eu queria voltar pra casa e dizer pra Rúbia que tava tudo certo, que as crianças estavam seguras e que o mundo tinha regras. Em vez disso, guardei o telefone no bolso e guardei a verdade junto.
No caminho de volta, não falamos quase nada. Às vezes o silêncio entre irmãos de guerra diz mais do que três planos. Quando parei na mansão, desci primeiro, fui até o quarto. Rúbia dormia de lado, uma mão estendida em Andrew na cama. Mia respirava tranquilo no berço, o bichinho de pano encostado na boca. Andrew sugava o seio dela enquanto podia.
Dormiu amamentando.
Apoiei a testa na grade do berço. Prometi baixinho o que tenho prometido desde que a achei:
— Ninguém toca em você minha querida. Nem o passado.
Depois saí, devagar, antes que a culpa resolvesse me pedir explicações. O amanhã traria uma resposta. Só que seria eu a dar o veredito. Se o maldito vive ou morre.

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