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Roubada no altar pelo chefe da Máfia romance Capítulo 156

Capítulo 156

Derrick

A cabeça latejava como se o mundo inteiro tivesse decidido bater à minha porta ao mesmo tempo. O gosto amargo de álcool ainda me perseguia, mesmo depois de litros d’água e café. Eu não devia ter bebido ontem. Não devia ter dito metade do que disse. Mas já era tarde — e na minha vida, “tarde demais” é quase rotina.

Dirigi direto pro reduto. O motor do carro era o único som que me mantinha são. O resto estava em ruína dentro de mim.

Chegando lá, os rapazes estavam descarregando um lote de armas novas — as da remessa italiana. O cheiro de óleo e ferro tomou o ar. Tentei focar nos relatórios, nas anotações, mas as palavras embaralhavam.

“Rúbia está grávida.”

A frase se repetia na minha cabeça feito tiro de advertência.

Ela diz que é meu filho, mas não pode ser. Não depois do diagnóstico. Não depois de ouvir da boca de um médico que eu não podia.

A ex jogou isso na minha cara mais vezes do que quero lembrar. Me destruiu com aquele sorriso de deboche. E agora, justo quando eu achava que tinha recomeçado, que a vida finalmente fazia sentido ao lado de Rúbia e da pequena Mia… vem isso.

Fechei os olhos, respirando fundo.

— Maldita hora que peguei no copo — murmurei, sentindo o arrependimento pesar mais que o chumbo nas caixas.

O celular vibrou. Luca Black.

Merda.

Atendi. O tom dele foi direto, seco, sem margem pra defesa.

Fiquei ouvindo, imóvel, enquanto ele deixava claro que Rúbia e a Mia estavam na casa dele — sob proteção dele — e que eu não devia me aproximar.

Sob proteção dele.

Essa frase me engasgou.

Não era uma ordem qualquer. Era uma sentença.

Quando ele desligou, fiquei ali, sentado na beira da mesa do galpão, olhando pro nada. Ronald apareceu na porta.

— Derrick? — hesitou. — Os números do lote estão certos. Quer revisar agora?

— Não. — Passei a mão pelos olhos. — Depois.

Fiquei alguns minutos parado, respirando o ar pesado do depósito. Depois peguei o carro e voltei pra casa. Precisava de silêncio.

Entrei e fui direto pro escritório. A pasta com relatórios estava em cima do armário, aberta pela metade. Puxei, tentando lembrar o que tinha esquecido. Foi quando notei uma pasta azul ao lado, diferente.

Não me lembrava dela ali.

Peguei e abri.

O papel deslizou nas minhas mãos. A imagem granulada em preto e branco me fez parar de respirar.

Um pontinho no centro. Pequeno. Vivo.

Ultrassom obstétrico. 8 semanas e 3 dias.

Meu coração deu um salto desconcertante. Fiz as contas — duas vezes, três, quatro na primeira noite. O casamento… o tempo juntos…

Não batia.

Ou batia demais.

Soltei o ar devagar, os olhos fixos naquele pontinho.

“Será que o filho é mesmo meu?”

A dúvida queimava.

Mas junto dela veio algo mais silencioso — e perigoso.

Um fio de esperança.

Fechei os olhos, o rosto entre as mãos.

Por um segundo, imaginei a cena: Rúbia rindo, Mia correndo, e eu segurando aquele bebê no colo. Um lar.

Sacudi a cabeça, afastando o devaneio.

— Não. — murmurei, firme. — Ela deve ter me enganado.

Mas algo dentro de mim não acreditava.

Levantei, fui até o painel das câmeras de segurança. Rolei as imagens da noite anterior. Nada. Só eu, cambaleando, e depois silêncio. Nenhum homem, nenhum carro estranho.

Droga.

A imagem do ultrassom me perseguia. Aquela sombra branca parecia respirar.

— Que inferno… — bati o punho na mesa.

Fechei a pasta, mas não consegui guardá-la. Segurei-a contra o peito, como se tivesse medo de perder o que ainda não acreditava ser meu.

Greting apareceu, hesitante.

— Precisa de alguma coisa senhor?

— Rúbia comeu hoje? — perguntei, sem levantar o olhar.

— Não, senhor. Ignorou o café da manhã. Saiu com a menina, não sei pra onde foi.

Meu estômago virou.

Saiu, claro. Foi pra casa do Luca.

— Tá. — Foi tudo o que respondi.

Peguei as chaves de novo. O carro rugiu na garagem. Tomei uma decisão.

No caminho, tentei ensaiar o que diria. Nenhuma frase parecia boa o bastante. “Desculpa” soava fraco. “Eu te amo” soava cedo demais. E “não sei o que pensar” soava covarde.

Mas quando vi o portão da casa dos Black, a raiva veio junto da coragem.

Desci do carro antes mesmo de o segurança vir até mim.

— Preciso falar com ela. — Minha voz soou dura. — Agora.

Passei pelo corredor e saí no jardim.

— Eu disse pra soltar! — ela elevou a voz, o corpo tremendo.

Foi quando outra voz cortou o ar — grave, gelada, incontestável.

— Solta ela, Derrick.

Congelei.

Luca Black estava parado a poucos metros, as mãos nos bolsos, o olhar fixo em mim como uma arma carregada.

— Eu já disse que ela só sai daqui se quiser. — A voz dele era baixa, mas cada palavra pesava toneladas.

Soltei o braço dela devagar, sem conseguir desviar o olhar dele.

— Don, eu só vim conversar — tentei explicar, engolindo o orgulho. — Eu não ia fazer nada.

— Não pareceu. — Luca deu um passo à frente, o terno balançando levemente. — E não é aqui que você vai resolver seus assuntos pessoais. Mia está assustada.

Olhei para a pequena e a peguei no colo.

— Está tudo bem pequena...

Rúbia respirava rápido ao lado do carrinho, as mãos trêmulas. Eu dei um passo pra trás, tentando recompor a dignidade.

— Eu... encontrei a ultrassonografia. — murmurei. — Eu vi. As datas batem com nosso casamento.

Os olhos de Luca afiaram.

— Então você já sabe o que tem que fazer. O exame será na próxima segunda.

Assenti, sem coragem de contestar.

Ele se aproximou, baixo o bastante pra só eu ouvir:

— E se eu perceber que você encosta nela de novo sem permissão, eu mesmo te quebro o braço. Está entendido?

Meu corpo inteiro gelou.

— Entendido, Don.

Ele se afastou, deu um leve toque no ombro de Rúbia — um gesto protetor — e olhou pra mim uma última vez.

— Vai trabalhar, Derrick. Amanhã você fala comigo.

Fiquei parado ali, sem saber se sentia raiva, vergonha ou um buraco enorme onde antes estava meu orgulho.

Devolvi Mia pra ela.

Rúbia virou o carrinho e entrou de volta na casa, sem olhar pra trás.

E eu fiquei no jardim, olhando pro portão, com a imagem da ecografia queimando na memória.

Talvez aquele pontinho fosse mesmo meu.

Talvez fosse o único pedaço meu que ainda valia a pena proteger.

Mas como acreditar com esse medo me atravessando o peito?

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