LEAN HAMPTON
Desci no andar da maternidade.
Parei em frente ao banheiro de visitantes e me cheirei obsessivamente. Jaleco? Cheiro de hospital. Cabelo? Cheiro de xampu e um leve toque de fumaça.
— Droga.
Tirei um frasco de perfume da bolsa e borrifei uma nuvem de "Flowerbomb" sobre mim, depois masquei dois chicletes de hortelã extra forte.
Pronta.
Caminhei pelo corredor da ala VIP da maternidade. Essa ala era diferente do resto do hospital. O chão era acarpetado e as paredes tinham quadros de arte abstrata calmante.
Parei na porta do quarto 405 e bati suavemente antes de entrar.
A cena lá dentro fez meus ombros tensos relaxarem instantaneamente.
A luz estava baixa. Alex estava sentado na poltrona reclinável, segurando um pacote pequeno nos braços, balançando suavemente. Lizzy estava na cama, cercada de travesseiros, com um laptop no colo, mas sorrindo para os dois homens da vida dela.
— A tia favorita chegou. — Sussurrei, entrando.
— Shh! — Alex sibilou. — Ele acabou de dormir. Não o acorde, Leah, ou eu te demito da família.
— Você não tem esse poder, maninho. — Caminhei até ele e olhei para o meu sobrinho.
Noah William Hampton. Ele era lindo. Tinha os cabelos escuros que não sei se tinham a ver com o pai ou a mãe e os traços delicados da Lizzy.
— Posso? — Estendi os braços.
Alex passou o bebê para mim com aquele cuidado exagerado de pai de primeira viagem.
Segurei Noah. O cheiro de bebê recém-nascido era a melhor droga do mundo, muito melhor que a nicotina. Encostei meu nariz na cabecinha dele, inalando paz.
— Oi, carinha. — Murmurei. — Quando estiver maior a tia Leah vai te ensinar a fazer bagunça e a gastar o dinheiro do seu pai.
— Ei! — Alex protestou.
Caminhei com Noah até a cama e sentei na beirada, ao lado de Lizzy.
— Como você está, mamãe?
— Dolorida. — Lizzy admitiu. — Mas feliz. Leah... obrigada.
— Pelo quê?
— Por esse quarto. — Alex apontou ao redor. — Pela equipe. A Dra. Evans disse que você moveu montanhas para garantir que tivéssemos a suíte presidencial e as melhores enfermeiras. Eu sei que você não é obstetra, mas seus contatos foram incríveis.
Dei de ombros, minimizando. A verdade é que eu tinha trocado favores com residentes, prometendo cobrir plantões no Natal e no Ano Novo pelos próximos três anos, e tinha implorado ao administrador do andar. Mas eles não precisavam saber disso.
— É o mínimo. Vocês vieram para o meu hospital. Eu tinha que garantir que o novo Hampton fosse tratado como realeza. Família é para isso.
— Você é incrível. — Lizzy apertou minha mão. — Adoraria que você ficasse aqui com a gente a noite toda.
Olhei para o relógio na parede. Eram quase 20h. Meu turno no Trauma só acabava às 22h, e eu ainda tinha pilhas de papelada.
— Eu adoraria, Lizzy. De verdade. — Suspirei, olhando para Noah dormindo nos meus braços. — Mas eu ainda tenho duas horas de plantão.
— Como está sendo? — Alex perguntou. — Trabalhar num lugar novo, depois da especialização no Mount Sinai... eles estão te tratando bem?
Pensei no Dr. "Ego" gritando comigo hoje. Pensei no cigarro no terraço. Pensei na solidão de almoçar no carro para não ter que ouvir as fofocas no refeitório.
Forcei meu sorriso mais brilhante.
— Está sendo ótimo, Alex. — Menti. — A equipe é super competente. Estou aprendendo muito. É desafiador, claro, mas estou me adaptando super bem.
Alex relaxou visivelmente.
— Que bom, Leah. Eu estava preocupado com seu cansaço, sei que sua profissão pode ser muito difícil.
— Eu sou uma Hampton, Alex. Nós comemos "difícil" no café da manhã.
O nome poderia ser comparado com a sensação de ter um desfibrilador no peito.
Blackwood.
Não. Não podia ser.
Um homem saiu da lateral do palco e o auditório explodiu em aplausos educados, mas eu estava congelada.
Era ele.
O homem do terraço.
Sob as luzes fortes do palco, ele parecia ainda mais imponente. Ele caminhou até o pódio com uma confiança que beirava a arrogância, dominando a sala sem dizer uma palavra.
Ele era o meu novo chefe supremo. O chefe do meu chefe. O dono da porra toda.
E eu tinha dito a ele o quanto odiava trabalhar ali. Tinha fumado na cara dele, reclamado dos colegas e da administração para o novo administrador.
Senti o sangue drenar do meu rosto. Eu estava morta. Demitida. Exilada da medicina.
Markus Blackwood ajustou o microfone.
— Boa noite. — Aquela voz de barítono que tinha me arrepiado no terraço, agora preenchia o auditório. — O Manhattan Grace é uma instituição de prestígio. Mas prestígio não salva vidas, eficiência e competência sim.
Ele fez uma pausa, e seus olhos cinzentos começaram a varrer a plateia.
— Haverá mudanças. — Ele continuou. — E haverá uma nova cultura de excelência. Aqueles que estiverem aqui para jogar golfe... podem ir embora.
Engoli em seco. Ele tinha usado minha frase. "Hierarquia baseada em quem j**a golfe".
Os olhos dele continuaram varrendo a sala, fila por fila.
Então, pararam. Na terceira fila. Em mim.
— Eu vejo tudo o que acontece neste hospital. Do subsolo... — Ele fez uma pausa mínima, e um canto da boca dele se curvou naquele micro-sorriso que eu vi no escuro. — ...até o terraço.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!