MARKUS BLACKWOOD
Do púlpito, eu tinha a visão perfeita do lugar que eu acabara de comprar. Ou melhor, que o conselho tinha desesperadamente colocado nas minhas mãos para evitar a falência.
A festa tinha acabado. O Manhattan Grace tinha sido, por anos, um clube de campo glorificado onde a medicina era secundária à política interna.
Não mais.
Meus olhos varreram a terceira fila novamente.
Dra. Leah Hampton.
Ela estava pálida. A cor tinha drenado daquele rosto expressivo que, minutos atrás, no terraço, estava corado de indignação e frio. Ela tinha os lábios entreabertos e os olhos fixos em mim como se visse um fantasma.
Gostei dela. Parecia ser uma das poucas que enxergava como as coisas funcionavam nesse lugar, mas eu vou mudar isso.
Eu não estava ali para fazer amigos. Eu era um cirurgião cardiotorácico por formação e vocação, treinado para abrir o peito humano, parar o coração, consertá-lo e fazê-lo bater de novo. Tinha trocado o bisturi pela caneta de executivo não porque gostava de burocracia, mas porque percebi que podia salvar mais vidas organizando os subordinados do que operando um paciente de cada vez.
Eu estava prestes a detalhar as demissões em massa que começariam na manhã seguinte, quando uma cacofonia de sons começou.
Centenas de pagers vibrando e apitando simultaneamente. Celulares tocando. O som agudo e insistente do alerta de "Código Vermelho" preencheu o auditório como um enxame de abelhas.
Todos olharam para seus dispositivos, depois olharam para o palco. Para mim. Como ovelhas esperando o pastor dizer que podiam se mover.
Todos, exceto uma.
Na terceira fila, Leah Hampton não olhou para mim. Nem hesitou. No segundo em que seu pager vibrou, ela leu a mensagem e seu corpo reagiu como se tivesse levado um choque elétrico. Ela pulou da cadeira, empurrando o ortopedista ao seu lado sem pedir licença, e correu para o corredor central.
Ela nem sequer olhou para trás. O rabo de cavalo cacheado balançou com a violência do movimento enquanto ela disparava em direção às portas de saída, ignorando a hierarquia e o novo chefe.
O restante do auditório permaneceu sentado, paralisado pela indecisão.
Aquilo me irritou profundamente.
— O que vocês estão esperando?! Um convite formal impresso em papel?! — O rugido da minha voz quebrou o transe. — Se é uma emergência, saiam daqui e vão fazer o maldito trabalho de vocês!
Médicos se levantaram aos tropeços, correndo para as saídas. O auditório se esvaziou em segundos, deixando para trás apenas o eco dos passos apressados.
Parei e olhei para ele por cima do ombro.
— Abernathy, suma da minha vista.
— Mas... para onde o senhor vai?
— Vou supervisionar. Vou ver se o investimento que estou prestes a fazer nesse hospital vale a pena. E se precisarem de mãos... — Olhei para as minhas próprias mãos. Mãos que não tocavam em um coração aberto há dois anos, mas que nunca esqueceram a textura de um ventrículo pulsante. — ...não vou me incomodar em ajudar.
Entrei no elevador e apertei o botão do subsolo.
Enquanto a caixa de metal descia, pensei em Leah Hampton. A garota rica. A "irmã de alguém". Mas ela correu. Ela correu em direção ao fogo enquanto os outros esperavam permissão para pegar o extintor.
Eu me via nela. Aquele mesmo impulso suicida de consertar o mundo com as próprias mãos, aquela mesma arrogância necessária para acreditar que você pode enganar a morte.
A porta do elevador se abriu e o cheiro me atingiu. Sangue. Antisséptico. Vômito. Medo.
Bem-vindo ao lar, Markus.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!