LEAH HAMPTON
O vento noturno de Nova York no terraço do Hospital Manhattan Grace não era gentil. Ele batia contra o meu jaleco branco, penetrava no meu scrub azul e gelava até os ossos, mas eu não me importava.
Na verdade, eu agradecia. O frio era a única coisa que me lembrava de que eu ainda tinha um corpo, de que eu não era apenas uma máquina de costurar carne e preencher prontuários eletrônicos que funcionava à base de cafeína e ocasionalmente, de nicotina.
Apoiei os cotovelos no parapeito de concreto, olhando para as luzes da cidade que se estendiam até o Central Park. Tremendo um pouco, se era de frio ou de raiva residual, eu não sabia dizer.
Suspirei e tirei o maço amassado do bolso.
Era um hábito nojento. Eu sabia. Eu era médica, pelo amor de Deus.
Tinha passado anos na faculdade de medicina vendo pulmões pretos em potes de formol. Eu sabia exatamente o que a nicotina fazia com a vasoconstrição periférica.
Mas naquele momento, depois de um plantão de 14 horas onde o Chefe de Cirurgia, Paulo Torres, Dr. "Mãos de Deus" e Ego do tamanho de Manhattan, tinha me rebaixado na frente de três residentes por um erro que ele cometeu... eu precisava daquilo.
Acendi o cigarro. A chama do isqueiro iluminou meu rosto por um segundo, e dei a primeira tragada profunda. A fumaça preencheu meus pulmões, tóxica e reconfortante, acalmando o tremor nas minhas mãos.
Soltei a fumaça lentamente, vendo-a ser levada pelo vento.
— Um médico fumante não é exatamente uma visão inspiradora de saúde, é?
A voz veio das sombras, grave, barítona e uma desaprovação mais fria que o vento.
Dei um pulo, quase derrubando o cigarro. Girei sobre os calcanhares, com o coração disparando.
Havia um homem parado perto da porta de acesso ao terraço.
Ele não usava jaleco, nem scrubs. Estava vestido com um terno preto, cortado sob medida para ombros largos e uma postura militar. A camisa branca, sem gravata, estava com o colarinho aberto revelando apenas um vislumbre de pele pálida.
Ele caminhou para mais perto e a luz da torre de segurança iluminou seu rosto.
Prendi a respiração.
Ele era... devastador. Tinha traços fortes, um maxilar quadrado, e cabelos escuros, curtos, penteados com uma perfeição irritante. Seus olhos eram de um azul cinzento.
Recuperei minha compostura, ou o que restava dela. Escondi o cigarro atrás das costas, como uma adolescente pega matando aula.
— Eu não fumo. — Menti descaradamente.
O homem arqueou uma sobrancelha escura.
— É mesmo? — Ele deu outro passo à frente. — Então a fumaça que está saindo de trás de você é o quê? Sua costa está pegando fogo doutora? Devo chamar os bombeiros?
Senti meu rosto esquentar. Ótimo.
— Não será necessário.
— Você está insultando a minha visão, doutora. — Ele continuou, parando a dois metros de mim. — E a minha inteligência.
Soltei um suspiro derrotado e trouxe a mão de volta para frente, revelando a brasa acesa.
— Isso acontece esporadicamente. — Admiti, defensiva. — Apenas quando minha cabeça está muito cheia.
Ele inclinou a cabeça ligeiramente, os olhos cinzentos fixos nos meus.
Ele não elaborou, e eu não perguntei. Estava frio demais e eu precisava voltar antes que alguém notasse minha ausência.
Estendi a mão.
— Bom, "algo assim", eu sou a Dra. Leah Hampton. Cirurgia de Trauma.
Ele olhou para a minha mão por um segundo antes de aceitá-la. A mão dele era grande, quente e áspera, praticamente engoliu a minha.
— Dra. Leah Hampton. — Ele testou meu nome, e um arrepio percorreu minha espinha que não tinha nada a ver com o vento. — Cirurgia de Trauma. Sempre lidando com catástrofes.
— Alguém tem que consertar o que quebra, certo?
— Certo.
Soltei a mão dele, sentindo falta do calor instantaneamente.
— Bom, eu tenho que ir. Tenho pacientes para checar e relatórios para preencher antes que meu chefe decida que minha caligrafia é ofensiva também.
Caminhei até a porta.
— Provavelmente não nos veremos com frequência, Sr. Blackwood. O Trauma é no subsolo e consultores costumam ficar nas coberturas. Mas... foi um prazer.
— O prazer foi meu, Leah. — Ele usou meu primeiro nome. Soou íntimo demais, mas segui em frente.
Abri a porta e entrei no calor do corredor hospitalar, deixando o homem de terno preto sozinho.
Mal sabia eu que aquele encontro no telhado seria a coisa mais simples da minha vida dali para frente.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!