DAMIAN WINTER
Os dias que se seguiram ao meu depoimento foram um teste de resistência. Cada manhã, vestíamos, nos sentavámos na mesma fileira, ouvíamos o que diziam e a mão de Stella constantemente na minha. A rotina era entorpecente. Mas em meio ao tédio processual, houve momentos de clareza.
O dia do testemunho de Stella foi um deles. Thorne, o tubarão, tentou devorá-la. Ele foi sórdido, insinuando que ela era uma interesseira que se aproveitou da minha vulnerabilidade após a morte de Sophie. Ele tentou torcer o amor dela por mim em uma ambição calculista.
Mas ele subestimou Stella. Ela não se alterou, não levantou a voz. Ela apenas falou a verdade. Quando Davies a questionou sobre o que sentiu quando Sophie a ameaçou e aos meninos, a voz dela não vacilou.
— Quando uma pessoa ameaça seus filhos, você não sente medo. Você sente uma fúria que faria o inferno parecer frio. Eu sabia do que aquela mulher era capaz, e eu faria qualquer coisa para proteger minha família.
Senti muito orgulho. O júri estava fascinado. O tubarão havia encontrado uma leoa.
O golpe final, no entanto, foi a gravação. Davies a anunciou. Quando minha voz e a de Célia preencheram o silêncio do tribunal, todo o rumo do julgamento mudou. Ouvir novamente, despido da adrenalina do momento, foi surreal. A arrogância na voz dela, a confissão fria, a encenação da ligação para o marido... e então, o som da arma destravando. E o disparo.
O som do tiro ecoou na sala, fazendo várias pessoas na galeria pularem em seus assentos. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Vi um dos jurados, uma mulher de meia-idade, levar a mão à boca, com os olhos arregalados de horror. Thorne tentou argumentar que a gravação havia sido editada, manipulada, mas era um esforço patético. A verdade estava ali, nua e crua, para todos ouvirem. A narrativa dele sobre uma "mãe enlutada e aterrorizada" se desfez em pó.
Hoje era o dia final. O dia dos argumentos de encerramento. Thorne foi primeiro, em uma última e desesperada tentativa de pintar um quadro de vitimização. Ele gesticulou, com sua voz subindo e descendo em tons dramáticos, falando sobre a dor de uma mãe e o medo de uma mulher encurralada. Era uma performance, mas uma performance vazia. Sem a base da verdade, suas palavras eram apenas ruído.
Então, Sr. Davies se levantou e usou de fatos. Caminhou lentamente em frente ao júri, falando com convicção.
— O que vocês ouviram nesta sala nos últimos dias não é uma tragédia. Não é a história de uma mãe levada ao desespero. É a história de uma mulher consumida pela ganância e pelo ódio, que estava disposta a matar, mentir e destruir famílias para conseguir o que queria. A defesa quer que vocês ignorem as evidências. Querem que ignorem a gravação. Querem que ignorem a confissão. Eles querem que vocês acreditem em uma ficção, porque a realidade... — ele fez uma pausa, virando-se para apontar diretamente para Célia — ...a realidade é que Célia Pósitron é uma assassina a sangue frio. A escolha é de vocês. Fatos ou ficção? Justiça ou manipulação?
Quando ele terminou, o juiz deu suas instruções finais ao júri. E então, eles se retiraram para deliberar.
A espera foi a pior parte. A sala do tribunal foi esvaziada para o recesso, mas nós permanecemos em nosso lugar.
Uma hora se passou. Depois duas. Cada minuto se arrastava como uma eternidade. Finalmente, após quase três horas, o oficial de justiça entrou na sala.
— Eles chegaram a um veredito.
A sala do tribunal se encheu novamente. O júri entrou, os rostos inexpressivos, evitando nosso olhar. Era um mau sinal? Um bom sinal? Eu não fazia ideia.
Eles tomaram seus lugares e Célia foi trazida de volta.
— Por favor, levantem-se. — ordenou o oficial.
Ficamos todos de pé. O silêncio era tão profundo que eu podia ouvir o sangue pulsando em meus ouvidos.
— O júri chegou a um veredito unânime? — perguntou o juiz ao presidente do júri, um homem de aparência comum que de repente detinha o poder sobre nossas vidas.
Célia foi instruída a se levantar. O juiz olhou para ela por cima de seus óculos, a expressão desprovida de qualquer simpatia.
— Sra. Pósitron, o júri a considerou culpada dos crimes mais graves que um ser humano pode cometer contra outro. Você agiu não por paixão ou medo, mas com premeditação fria e calculista. Você demonstrou um desprezo absoluto pela vida humana e pela dor que causou. Este tribunal não encontra nenhuma circunstância atenuante em suas ações. Portanto, para o crime de homicídio qualificado de Nathan Ponlic, eu a sentencio à prisão perpétua. Para o crime de tentativa de homicídio contra Damian Winter, eu a sentencio à prisão perpétua. As sentenças serão cumpridas consecutivamente, sem possibilidade de liberdade condicional.
Perpétua. Duas vezes. Ela apodreceria em uma cela. Ela nunca mais veria a luz do dia como uma mulher livre.
Dois oficiais se aproximaram e a algemaram. Enquanto a levavam para fora, ela se virou uma última vez, o rosto contorcido em fúria.
— Você não venceu, Damian! — ela cuspiu. — Você nunca vai ter paz!
As portas se fecharam atrás dela, e suas palavras foram engolidas pelo silêncio.
Virei-me para Stella. As lágrimas corriam livremente por seu rosto, mas ela estava sorrindo. Um sorriso trêmulo, mas radiante. Era o sorriso mais bonito que eu já tinha visto.
— Acabou. — ela sussurrou.
— Acabou. — repeti, inclinando-me para beijar sua testa.
Saímos do tribunal de mãos dadas, passando pelo circo da mídia sem sequer notá-los. O sol da tarde parecia mais brilhante e o ar mais limpo. A guerra estava vencida.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!