DAMIAN WINTER
O tempo passou devagar, arrastando-se lentamente apesar da minha pressa em fazê-lo. Stella percebeu, claro. Mesmo que eu tentasse disfarçar, ela notava que essa espera me corroía por dentro e fez o melhor que pôde para me distrair.
Na manhã do segundo dia, ela acordou pouco depois de mim. Vi quando saiu da cama e se sentou ao meu lado, deitando em seguida com o rosto parcialmente iluminado pela luz suave do amanhecer. Ficamos assim por um tempo, sem dizer nada, só respirando o mesmo ar.
— Vai ser hoje, não é? — perguntou enfim.
Abri os olhos e a encarei. Não adiantava mentir.
— Sim.
Ela assentiu, os dedos tocando de leve o meu braço.
— Promete que vai ficar tudo bem?
— Prometo, meu amor. Nosso tormento acaba hoje.
Ela sorriu e se inclinou para me beijar. Correspondi na mesma lentidão. Quando me afastei, apoiei a mão em sua nuca e encostei a testa na dela.
— Não se preocupa. — pedi. — Só confie em mim.
— Sempre. — respondeu, com total segurança.
Ficamos ali por mais alguns minutos antes que eu me levantasse. Tomei banho, vesti uma camisa social preta, ajustei a gravata, o relógio e por fim vesti o paletó. Olhei no espelho, encarando minha imagem.
Quando desci, minha mãe estava na cozinha, tomando café puro. Ela tentou disfarçar o nervosismo com um sorriso quando me viu.
— Vai encontrá-la? — perguntou, sem rodeios.
Assenti, sentando-me à mesa.
— É a única forma de conseguir que ele saia de lá.
Ela respirou fundo, apoiando as mãos no balcão.
— Só tenha cuidado, filho. Aquela mulher… Ela não tem nada a perder.
Levantei-me, a abracei e ela retribuiu de imediato.
— Eu sei o que estou fazendo, mãe. — murmurei. — E, se der certo, ele volta pra casa em breve.
Ela se afastou, com os olhos marejados.
— Obrigada, filho. Que Deus te proteja.
Dei outro abraço nela e me despedi de Stella na porta com outro beijo.
Saí de casa pouco depois das oito. O céu estava cinzento, como se estivesse prestes a chover.
O trajeto até o ponto de encontro com Elliot, o delegado e os policiais levou menos de quarenta minutos. Eles já estavam lá, em uma sala discreta de um prédio anexo à delegacia. O cômodo era pequeno, com paredes cobertas por painéis de monitoramento e fios espalhados.
Elliot veio ao meu encontro assim que entrei.
— Está pronto? — perguntou.
— Sem dúvidas. — respondi, entregando-lhe a pasta com os documentos extras que eu havia revisado na noite anterior.
— Obrigado. — falei, abrindo a porta do carro.
Antes de entrar, olhei para trás vendo os policias também ocuparem sua van e me seguirem.
Dirigi sem pressa, até que avistei o portão alto da mansão Pósitron, reduzi a velocidade e parei aguardando permissão.
Um dos seguranças que estavam posicionados, se aproximou do veículo e assim que viu meu rosto não precisou fazer nenhuma pergunta, nem hesitou em contatar alguém pelo rádio.
A espera durou pouco mais de dois minutos. Então, o portão começou a se abrir lentamente, revelando a entrada luxuosa da propriedade. A arquitetura de linhas retas e paredes de vidro, combinava perfeitamente com a mulher que morava ali: vaidosa, e absolutamente convencida de sua própria superioridade.
Estacionei diante da escadaria e desliguei o motor.
Abri a porta do meu carro e desci, caminhando em passos lentos e firmes. O som do vento misturava-se ao farfalhar das folhas e ao eco distante de um trovão. Quando alcancei o topo da escada, uma das portas se abriu.
Célia Pósitron veio me receber pessoalmente com um sorriso que não chegava aos olhos.
O cabelo perfeitamente penteado, com algumas joias discretas lhe adornando. Ela me analisou por um instante, evidentemente surpresa com minha visita repentina.
— Damian Winter… — disse, inclinando ligeiramente a cabeça como um cumprimento. — Que visita inesperada.
Inclinei o rosto da mesma forma, mantendo o olhar firme no dela.
— Célia. Precisamos conversar.
Ela arqueou uma sobrancelha, dando um passo para o lado, abrindo espaço.
— Claro. — respondeu, indicando que eu passasse por ela. — Entre. Estou curiosa para saber o que o traz até mim depois de tudo o que fez.

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