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Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu romance Capítulo 9

Na manhã seguinte, Helena acordou antes de Dante.

A claridade atravessava as cortinas em faixas suaves, espalhando-se pelo quarto como se nada tivesse acontecido. O mundo tinha essa crueldade. Continuava bonito mesmo quando uma vida começava a desabar por dentro. O sol tocava os lençóis brancos, o criado-mudo, o relógio caro de Dante esquecido ao lado do celular, a aliança no dedo dele repousada sobre o travesseiro.

Helena ficou deitada por alguns minutos, imóvel, olhando para o teto.

O marido dormia ao seu lado, tranquilo. O rosto relaxado, a respiração profunda, os cabelos caídos sobre a testa. Quem o visse assim jamais imaginaria que aquele homem carregava uma mentira tão suja. Parecia apenas cansado. Parecia o mesmo Dante que, anos antes, adormecia segurando a mão dela depois de noites longas no hospital. Parecia o homem que ela tinha amado.

Mas agora Helena sabia.

E saber mudava tudo.

Não transformava o amor em ódio de imediato. Seria mais fácil se fosse assim. O que ela sentia era pior. Era uma mistura de dor, nojo, incredulidade e uma tristeza funda, quase vergonhosa. Porque uma parte dela ainda queria que tudo tivesse sido um mal-entendido. Ainda queria acordar e descobrir que não havia varanda, conversa em italiano, apelido ridículo, garota de vestido amarelo, sorriso provocador.

Mas havia.

Bianca Salles.

O nome ficou preso em sua mente como uma agulha.

Helena saiu da cama devagar, tomando cuidado para não fazer barulho. Foi até o banheiro, fechou a porta e apoiou as duas mãos na bancada de mármore. Seu reflexo no espelho parecia calmo demais. Cabelo desfeito, rosto limpo, olhos fundos. Nada nela denunciava o que ouvira na noite anterior.

Ela abriu a torneira e molhou o rosto.

A água fria a ajudou a respirar.

Não podia se perder. Não ainda.

Tinha aprendido, ao longo da carreira médica, que o pânico era um inimigo perigoso. Diante de uma emergência, quem se desesperava perdia tempo, força e clareza. Era preciso avaliar, conter, entender a extensão do dano e só então agir. O casamento dela tinha acabado de entrar em colapso, mas Helena não morreria soterrada pelos escombros.

Ela precisava saber tudo.

Quem era Bianca de verdade. Há quanto tempo aquilo acontecia. Quantas vezes Dante havia mentido. Quantas noites em que ela dormiu sozinha tinham sido entregues a outra mulher. E, principalmente, por que o sobrenome Salles tinha apertado uma parte antiga e mal curada de sua memória.

Depois do banho, Helena vestiu uma calça clara, uma camisa de seda e prendeu o cabelo em um coque baixo. Quando voltou ao quarto, Dante ainda dormia. O celular dele vibrou uma vez sobre o criado-mudo.

Helena parou.

A tela acendeu por poucos segundos.

Nada apareceu, apenas a notificação protegida.

Ela encarou o aparelho.

Bastaria tocar. Bastaria pegar o celular, aproximá-lo do rosto dele enquanto dormia, desbloquear, abrir mensagens, fotos, ligações. Bastaria invadir a vida secreta que ele mantinha tão perto dela.

Mas não fez.

Não por respeito a Dante. Esse respeito ele mesmo havia quebrado.

Helena não tocou porque sabia que precisava agir com frieza. Se ele acordasse, se percebesse qualquer suspeita, apagaria tudo. Homens como Dante não eram descuidados por muito tempo. E, se Rafael já achava que ele estava se arriscando, era possível que começassem a limpar rastros.

Ela precisava ser mais paciente que a mentira.

Desceu para o café.

Dona Lídia estava na cozinha, organizando uma bandeja com frutas, pães e café fresco. Ao ver Helena, sorriu com doçura, mas o sorriso diminuiu ao notar seu rosto.

“A senhora está bem?”

Helena puxou uma cadeira.

“Estou cansada.”

“A festa foi bonita.”

“Foi.”

Dona Lídia serviu café em silêncio. Conhecia Helena havia anos e sabia quando uma pergunta deveria ficar guardada. Ainda assim, havia preocupação em seus gestos.

“O doutor Dante pediu que eu preparasse algo especial para o almoço. Disse que a senhora talvez ficasse em casa hoje.”

Helena segurou a xícara com as duas mãos.

“Ele pediu isso?”

“Pediu antes de dormir. Mandou mensagem.”

Helena baixou os olhos.

Dante ainda sabia parecer cuidadoso. Esse era um dos seus talentos mais cruéis. Ele errava, feria, mentia, mas deixava pequenas gentilezas pelo caminho para que a esposa continuasse acreditando que havia amor suficiente ali.

“Tenho hospital hoje”, disse.

“Pensei que estivesse de folga.”

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