Dez anos haviam passado.
Helena estava diante do espelho do quarto, tentando prender os cabelos enquanto ouvia uma sequência de batidas insistentes na porta.
Ela sorriu antes mesmo de responder.
"Pode entrar."
A porta se abriu.
Clara apareceu usando um vestido azul-claro e segurando um pequeno embrulho nas mãos.
"Você está pronta?"
Helena olhou para ela através do espelho.
"Quase."
"Você disse isso há vinte minutos."
"Uma mulher precisa de tempo para se arrumar."
Clara cruzou os braços.
"Você já estava pronta quando eu cheguei."
"Então eu estava esperando você."
"Mentira."
Helena riu.
Clara havia crescido muito.
A menina que costumava correr pela casa com os cabelos bagunçados e os pés descalços agora era uma adolescente cheia de personalidade. Ainda tinha o mesmo olhar determinado, mas havia adquirido uma delicadeza que lembrava muito a mãe.
Helena se virou.
"Venha aqui."
Clara se aproximou.
Helena ajeitou uma mecha do cabelo da filha.
"Você está linda."
"Obrigada."
"Está nervosa?"
"Um pouco."
"Não precisa."
Clara respirou fundo.
"É importante."
"Eu sei."
Helena segurou as mãos dela.
"Mas não precisa ser perfeito. Só precisa ser verdadeiro."
Clara sorriu.
"Você sempre fala isso."
"Porque é verdade."
Um som veio do corredor.
"Meninas! Estamos atrasados!"
As duas se entreolharam.
Helena sorriu.
"Seu pai."
Clara revirou os olhos.
"Ele está nervoso."
"Seu pai sempre fica nervoso quando precisa esperar."
A voz de Dante surgiu novamente:
"Eu estou ouvindo!"
Clara começou a rir.
"Vamos antes que ele entre aqui."
Helena pegou o pequeno embrulho que Clara carregava.
"O que é isso?"
"Um presente."
"Para quem?"
"Para você."
Helena abriu os olhos.
"Para mim?"
"Sim."
Clara entregou o embrulho.
Helena abriu cuidadosamente.
Dentro havia uma pequena fotografia.
Ela reconheceu imediatamente.
Era a fotografia tirada muitos anos atrás na praia.
Ela, Dante e Clara.
Na época, Clara ainda era pequena.
Helena sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
"Você guardou isso?"
"Sim."
"Por quê?"
Clara deu de ombros.
"Porque é uma das minhas fotos favoritas."
Helena passou o dedo pela imagem.
"Eu também gosto dela."
"Eu sei."
Clara abraçou a mãe.
"Você foi uma mãe incrível."
Helena fechou os olhos.
"Você também foi uma filha maravilhosa."
"Mesmo quando eu era chata?"
"Principalmente."
Clara riu.
"Pai diz que eu puxei você."
"Seu pai tem razão."
As duas ficaram abraçadas por alguns segundos.
Então Clara perguntou:
"Você é feliz?"
Helena abriu os olhos.
Olhou para a filha.
Depois para a fotografia.
E sorriu.
"Sou."
"Mesmo depois de tudo?"
"Depois de tudo."
Clara ficou em silêncio.
Helena sabia o que aquela pergunta significava.
A filha havia crescido ouvindo apenas partes da história.
Não conhecia todos os detalhes.
E Helena nunca quis que conhecesse.
Algumas dores pertenciam ao passado.
Não precisavam ser carregadas pelos filhos.
"O passado me ensinou muitas coisas", Helena disse. "Mas ele não escolhe o que eu sinto hoje."
Clara assentiu.
"Você ainda ama o papai?"
Helena soltou uma risada.
"Essa pergunta é séria?"
"Muito."
"Eu amo seu pai mais do que consigo explicar."
Clara sorriu.
"Ele também ama você."
"Eu sei."
"Como sabe?"
"Porque ele ainda me olha como se eu fosse a coisa mais importante do mundo."
Clara fez uma expressão divertida.
"Ele olha assim para a Sofia também."
"Isso é verdade."
A porta se abriu.
Dante apareceu.
"Estão falando de mim?"
Helena olhou para ele.
"Talvez."
Dante estava elegante, mas ainda havia algo nele que permanecia igual.
O mesmo olhar.
O mesmo sorriso.
A mesma maneira de procurar Helena assim que entrava em qualquer lugar.
Ele olhou para Clara.
"Está pronta?"
"Sim."
Depois olhou para Helena.
E ficou parado.
"Uau."
Helena sorriu.
"Não diga nada."
"Eu nem falei."
"Seu rosto falou."
Dante caminhou até ela.
"Você está linda."
"Obrigada."
Ele segurou a mão dela.
"Vamos?"
Helena assentiu.
"Vamos."
A casa estava cheia.
Laura conversava com Valentina perto da varanda.
Irene estava ajudando Sofia com alguma coisa.
Aurora ria ao lado de Elisa.
Marcelo discutia com Dante sobre uma viagem que pretendiam fazer juntos.
A casa que um dia havia sido apenas um sonho agora estava cheia de vozes.
Cheia de histórias.
Cheia de vida.
Helena observou tudo em silêncio.
Dante percebeu.
"O que foi?"
"Estou olhando."
"Para quê?"
"Para nossa família."
Ele apertou a mão dela.
"Bonita, não é?"
"Muito."
Sofia apareceu correndo.
"Mãe!"
Helena se abaixou.
A menina, agora com dez anos, abraçou a mãe.
"Você viu meu cabelo?"
"Vi."
"Gostou?"
"Adorei."
Sofia olhou para Dante.
"Pai, você viu?"
"Vi."
"Então por que não falou nada?"
Dante colocou a mão no peito.
"Eu estava esperando você perguntar."
Sofia fez uma careta.
"Você é engraçado."
"Eu tento."
Clara se aproximou.
"Pai, temos que ir."
"Estou pronto."
Helena olhou para os filhos.
Por um momento, teve a sensação de que o tempo havia passado rápido demais.
A menina que um dia segurara sua mão com medo agora caminhava ao lado dela com segurança.
Sofia, sempre cheia de energia, continuava enchendo a casa de risadas.
E Dante...
Dante continuava sendo Dante.
O homem que havia aprendido.
O homem que havia mudado.
O homem que ela escolhera amar novamente.
Naquela noite, depois que todos foram embora, a casa finalmente ficou silenciosa.
Helena estava na varanda.
O mar permanecia diante dela.
Dante apareceu carregando duas taças de suco.
Ela sorriu.
"Suco?"
"Você prometeu que não beberia vinho hoje."
"Eu prometi?"
"Prometeu."
"Então você está levando suas promessas muito a sério."
"Aprendi."
Ele sentou ao lado dela.
Helena encostou a cabeça no ombro dele.
"Está tudo tão quieto."
"Os filhos dormiram."
"Milagre."
Dante riu.
"Clara saiu com as amigas amanhã."
"Ela está crescendo."
"Está."
"Não gosto."
"Eu também não."
Helena levantou a cabeça.
"Você percebeu que ela já não é mais nossa garotinha?"
"Percebi."
"Quando aconteceu?"
Dante olhou para o mar.
"Enquanto estávamos ocupados vivendo."
Helena sorriu.
"Essa frase foi bonita."
"Anote."
Ela riu.
"Vou pensar."
Dante segurou a mão dela.
"Está feliz?"
Helena olhou para ele.
"Você ainda pergunta isso?"
"Vou perguntar até ficarmos velhos."
"Então minha resposta continuará sendo sim."
"Mesmo comigo?"
"Principalmente com você."
Dante sorriu.
"Eu te amo."

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