Bianca não era apenas a amante de Dante.
Era provavelmente sua meia-irmã.
O mundo pareceu se inclinar.
Uma colega entrou na sala, falando sobre um paciente, e Helena fechou a tela depressa. Respondeu o necessário, ouviu o caso, orientou exames. Sua voz não falhou. Suas mãos não tremeram. Mas por dentro algo antigo acabava de romper junto com o presente.
A amante do marido era sangue do seu sangue.
Uma irmã que nunca fora convidada a existir em sua vida agora entrava pela porta mais suja possível.
Quando o expediente terminou, Helena não foi para casa. Dirigiu até uma rua tranquila, estacionou diante de uma pequena cafeteria e ligou para um contato que não falava havia meses.
“Marcelo?”
“Helena? Que surpresa.”
Marcelo Diniz era advogado e amigo antigo da faculdade. Havia ajudado algumas colegas em divórcios complicados e tinha discrição como uma espécie de religião profissional.
“Preciso conversar com você.”
A mudança no tom dele foi imediata.
“Aconteceu alguma coisa?”
Helena olhou para a rua através do para-brisa.
“Ainda não sei o tamanho.”
“É sobre Dante?”
Ela fechou os olhos.
“É.”
“Você quer vir ao escritório?”
“Não. Preciso que seja fora dele. E preciso que ninguém saiba.”
Marcelo ficou em silêncio por um segundo.
“Entendi. Hoje?”
“Hoje.”
“Te mando um endereço.”
Helena desligou e ficou parada dentro do carro. Só então permitiu que uma lágrima caísse. Apenas uma. Limpou-a com os dedos antes que outra viesse.
Não podia desabar.
Ainda precisava voltar para casa e olhar para Dante como se nada tivesse mudado.
Quando chegou, ele estava na sala, ao telefone. Assim que a viu, encerrou a ligação com rapidez.
“Você demorou.”
Helena deixou a bolsa sobre o aparador.
“Tive pacientes.”
Dante se aproximou e beijou seu rosto. O perfume dele estava limpo, recém-aplicado. Sem traço floral. Sem erro.
“Você está melhor?”
“Estou.”
Ele estudou seus olhos.
“Ontem você ficou estranha depois de falar com Bianca.”
O nome dela na boca dele soou íntimo demais.
Helena caminhou até a sala e pegou um copo de água.
“Ela é uma garota curiosa.”
Dante ficou atento.
“Curiosa como?”

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