Dante suspirou profundamente, passando uma das mãos pela nuca como se estivesse lidando com um problema difícil demais para compreender. Havia algo quase irritante na forma como ele a observava naquele momento, como se fosse Helena quem estivesse tornando a noite complicada.
Como se ela fosse a responsável pela tensão que pairava entre eles.
Como se o desconforto tivesse surgido do nada.
— Podemos voltar para a festa? — perguntou ele, suavizando a voz.
Helena sustentou seu olhar por alguns segundos.
Por trás daquela expressão controlada, ela conseguia enxergar a ansiedade dele. Não era preocupação com seus sentimentos. Era preocupação com a situação. Com as aparências. Com tudo aquilo que ainda precisava permanecer perfeitamente organizado.
— Podemos.
Dante pareceu relaxar.
Então segurou a mão dela.
O gesto teria sido reconfortante em qualquer outro dia. Durante anos, aquele simples toque fora suficiente para fazê-la sentir que não estava sozinha. Durante anos, bastava que Dante entrelaçasse seus dedos aos dela para que Helena acreditasse que os dois enfrentariam qualquer problema juntos.
Agora, porém, a sensação era diferente.
A mão dele parecia familiar.
Mas o homem que a segurava já não era.
Ainda assim, ela não se afastou.
Permitiu que a conduzisse de volta ao salão.
Quando atravessaram novamente as portas de vidro, foram recebidos pela música suave, pelo brilho dos lustres e pelas conversas elegantes que preenchiam o ambiente. Nada havia mudado para os convidados.
Para todos os presentes, continuavam sendo o casal admirado.
A médica respeitada e o empresário bem-sucedido.
A esposa elegante e o marido atencioso.
O casal que parecia ter encontrado equilíbrio mesmo depois de tantos anos de casamento.
Ninguém imaginava que, por trás dos sorrisos, existia uma rachadura profunda se abrindo naquele exato momento.
Dante voltou a circular pelo salão com mais naturalidade. Cumprimentava convidados, recebia elogios, fazia comentários bem-humorados e aceitava tapinhas amigáveis nas costas.
Pouco a pouco, a tensão desapareceu de seu rosto.
Ele acreditava ter resolvido a situação.
Acreditava que a conversa na sala reservada tinha sido suficiente.
Acreditava que Helena continuava sem saber de nada.
E essa falsa segurança devolveu a ele o brilho habitual.
Helena observava tudo em silêncio.
Observava como ele sorria.
Como gesticulava.
Como parecia confortável dentro da própria mentira.
Do outro lado do salão, Bianca também observava.
A jovem segurava uma taça de espumante enquanto conversava com duas mulheres ligadas ao setor de marketing da empresa. De vez em quando, ria de alguma coisa, inclinava a cabeça ou afastava uma mecha de cabelo do rosto.
Mas seus olhos continuavam procurando Dante.
E, às vezes, Helena.
Como alguém que assistia a um jogo particular.
Como alguém que acreditava estar vencendo.
Helena encontrou seu olhar apenas uma vez.
Bianca sorriu.
Helena não.
Desviou os olhos sem oferecer qualquer reação.
Aquilo pareceu frustrar a garota por um breve instante.
E Helena guardou essa informação.
Naquela noite, enquanto observava o marido receber elogios por uma festa criada para encobrir outra culpa, ela aprendeu algo importante.
A dor gritava no começo.
Chegava como uma explosão.
Como uma queda livre.
Como um golpe tão forte que fazia faltar ar.
Mas depois de algum tempo, o sofrimento mudava de forma.
Deixava de ser barulho.
Tornava-se silêncio.
E o silêncio era perigoso.
Porque era nele que uma mulher começava a pensar.
Era nele que deixava de reagir apenas com o coração.
Era nele que passava a enxergar o que antes não queria ver.
Helena passou o restante da festa observando.
Apenas observando.
Guardando detalhes.
Expressões.
Olhares.
Pequenas coincidências.
Pequenos erros.
Quando finalmente deixaram o evento, já passava da meia-noite.
O elevador privativo os levou até a cobertura em absoluto silêncio.
Dante parecia cansado, mas também estranhamente animado. Talvez pelo sucesso da festa. Talvez pelo alívio de acreditar que continuava no controle.
Assim que as portas do elevador se fecharam, ele aproximou-se.
Seus dedos tocaram a cintura dela.
Depois seu rosto.
Então tentou beijá-la.
Desta vez não foi um beijo rápido ou protocolar.
Havia intenção.
Havia desejo.
Talvez culpa também.
Talvez a necessidade de reafirmar uma intimidade que já estava quebrada.
Helena virou o rosto com delicadeza antes que os lábios dele a alcançassem.
— Estou exausta.
A justificativa era simples.
Difícil de contestar.
Dante ficou imóvel por um instante.
A frustração passou por seus olhos.
Não durou muito.
Ele apenas assentiu.
— Claro.
Não insistiu.

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