No fim da tarde, Helena recebeu uma nova mensagem do Projeto Aurora.
Orientações preliminares confirmadas. Deslocamento em até 72 horas. Manter sigilo absoluto. Aguardar contato para informações logísticas.
Setenta e duas horas.
Agora menos.
Ela guardou o celular e foi até o quarto. Tomou banho, vestiu um conjunto claro, discreto, e prendeu o cabelo. Não queria parecer arrumada demais. Dante desconfiava de extremos. Precisava ser a Helena que ele esperava encontrar: elegante, cansada, um pouco distante, mas ainda dentro da casa.
Quando ele chegou, já passava das oito da noite.
Entrou falando ao celular, como quase sempre. Helena estava na sala, com a pasta azul sobre a mesa de centro e uma xícara de chá nas mãos. Observou-o encerrar a ligação, retirar o paletó e soltar um suspiro.
“Dia infernal”, ele disse.
“Problemas?”
“Sempre.” Ele se inclinou e beijou seu rosto. “E você?”
“Organizei algumas coisas.”
Dante olhou para a pasta.
“Coisas?”
“Documentos da casa.”
Ele franziu a testa.
“Que casa?”
Helena bebeu um gole de chá para ganhar naturalidade.
“A casa fora da cidade. Aquela que você comentou há alguns meses. O corretor ligou. Parece que os proprietários receberam outra proposta.”
Dante pareceu tentar lembrar.
“A casa em Vale Serena?”
“Essa.”
“Eu achei que você tivesse desistido.”
“Talvez eu esteja pensando melhor.”
O interesse dele mudou. Dante sentou-se no sofá, tirando os botões dos punhos da camisa.
“Pensando melhor por quê?”
Helena sentiu a pergunta chegar perto do segredo. Da gravidez. Da vida que ele não merecia saber ainda.
“Porque talvez seja bom ter um lugar longe de tudo.”
Dante a olhou de um jeito diferente.
“Para nós?”
“Para recomeçar algumas coisas.”
A frase foi cuidadosamente escolhida.
Ele entendeu como esperança.
Ela quis dizer despedida.
Dante sorriu de leve, e aquilo quase a feriu mais do que sua frieza. Havia alívio no rosto dele. Talvez achasse que a distância dela começava a ceder. Talvez acreditasse que uma casa nova pudesse cobrir a podridão da antiga.
“Eu gosto disso”, ele disse.
“Então preciso que assine alguns documentos de reserva.”
“Agora?”
“Eles precisam de resposta até amanhã cedo.”
Ele estendeu a mão.
“Me dá.”
Helena pegou a pasta e sentou-se ao lado dele. Seu coração começou a bater forte, mas as mãos permaneceram firmes. Abriu os papéis no colo e mostrou a primeira página.
“Aqui é só a intenção de compra.”
Dante pegou a caneta.
“Valor?”
“Dentro do que você tinha comentado.”
“Você revisou?”
“Revisei.”
Ele assinou.
Sem ler.

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