Entrar Via

Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu romance Capítulo 16

Helena passou a manhã seguinte abrindo gavetas que, durante anos, haviam parecido apenas parte da rotina.

A gaveta do aparador onde ficavam os documentos da casa. A gaveta lateral do escritório onde Dante guardava papéis que pretendia revisar e nunca revisava. A pasta cinza com contratos de imóveis, notas fiscais, cópias de passaportes, procurações antigas, recibos de viagens. Tudo parecia comum demais para a gravidade daquele momento. Como se uma vida inteira pudesse ser reduzida a papéis dobrados, assinaturas, datas e carimbos.

Ela fotografou o que precisava. Separou cópias. Guardou arquivos em uma nuvem segura, conforme Marcelo havia orientado. Fez tudo com calma, recolocando cada item no mesmo lugar.

A casa estava silenciosa.

Dante havia saído cedo para uma reunião e, antes de ir, beijara a testa dela como se aquela pequena ternura pudesse apagar a rachadura entre os dois.

“Hoje volto cedo”, dissera.

Helena apenas assentiu.

Já não perguntava se ele prometia.

Promessas, agora, tinham o som de copos vazios.

No closet, ela abriu a mala pequena escondida sob uma capa de roupas de inverno. Dentro, já havia passaporte, exames, documentos pessoais, cópias de contratos e a caixa branca com o teste de gravidez. Acrescentou um envelope com fotografias impressas. Algumas eram dela e de Dante ao longo dos anos. Escolhera as mais importantes, não por apego, mas porque sabia que talvez precisasse destruí-las longe dos olhos dele.

Ainda não tinha coragem.

Segurou uma delas por mais tempo.

A foto mostrava o casamento. Helena estava de vestido branco, cabelo preso, rosto iluminado por uma felicidade sem defesa. Dante segurava sua mão e a olhava como se o mundo inteiro tivesse desaparecido ao redor dos dois. Ela se lembrava daquele olhar. Lembrava da força dele. Lembrava de ter pensado, naquele dia, que jamais seria abandonada por aquele homem.

Que ingenuidade cruel.

A porta do quarto se abriu antes que ela tivesse tempo de guardar a foto.

Helena virou o rosto.

Dona Lídia estava parada no batente, com uma expressão preocupada.

“Desculpe, senhora. Eu bati, mas acho que a senhora não ouviu.”

Helena fechou a mala devagar.

“Tudo bem.”

A governanta olhou para a foto em sua mão, depois para a mala. Não perguntou nada, mas o silêncio dela pareceu entender mais do que deveria.

“O senhor Marcelo está na portaria”, disse. “Falou que a senhora o esperava.”

Helena respirou fundo.

“Sim. Pode pedir para subir.”

Dona Lídia permaneceu ali por um instante.

“Senhora…”

Helena ergueu os olhos.

A mulher mais velha apertou as mãos diante do avental.

“Eu trabalho nesta casa há muitos anos. Vi a senhora chegar menina, vi virar dona daqui, vi sorrir e também vi engolir muita coisa calada. Não sei o que está acontecendo, e não vou me meter onde não devo. Mas, se a senhora precisar que eu não veja algo, eu não verei. Se precisar que eu não escute, eu não escutarei.”

Helena sentiu a garganta apertar.

A bondade inesperada quase a quebrou.

“Lídia…”

“Só não deixe que ninguém faça a senhora acreditar que está sozinha.”

Por um momento, Helena não conseguiu responder. Depois se aproximou e segurou as mãos dela.

“Obrigada.”

Dona Lídia apertou seus dedos, como se dissesse mais do que qualquer frase permitiria, e saiu.

Helena ficou parada no closet, sentindo a emoção subir. Engoliu o choro antes que ele tomasse forma. Não podia se desfazer agora. Precisava terminar.

Marcelo chegou quinze minutos depois, usando um terno escuro simples e carregando uma pasta de couro. Helena o recebeu no escritório da casa, não no salão, não na sala de visitas. Escolheu o escritório de Dante de propósito. Havia algo simbolicamente justo em preparar o fim do casamento no lugar onde ele assinava contratos sem ler.

“Temos pouco tempo”, Marcelo disse, assim que a porta se fechou.

“Dante só volta no fim da tarde.”

“Você tem certeza?”

Helena olhou para o celular.

“Ele disse isso. Mas eu não tenho mais certeza de nada que venha dele.”

Marcelo assentiu e abriu a pasta.

“Trouxe o acordo. Está claro, legalmente estruturado e direto. Divórcio consensual. Separação de bens conforme levantamento inicial. Cláusulas de confidencialidade. Preservação da sua conta pessoal. Saída temporária da residência por motivos profissionais. Nada sobre gravidez.”

O nosso preço é apenas 1/4 do de outros fornecedores

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu