Helena voltou para casa já tarde da noite.
Nas mãos, carregava a pasta médica com os documentos do Projeto Aurora. Por fora, era apenas uma pasta comum, igual a tantas outras que havia levado para casa ao longo dos anos. Por dentro, porém, ela escondia uma nova vida.
Uma vida que começaria em apenas três dias.
Uma vida sem Dante.
Ao entrar, encontrou a casa silenciosa. As luzes da sala permaneciam acesas, criando sombras suaves sobre os móveis. O relógio na parede marcava quase dez horas.
Dante estava esperando.
Sentado no sofá, com os cotovelos apoiados nos joelhos, ele levantou a cabeça assim que ouviu a porta abrir.
— Precisamos conversar.
A voz dele soou séria.
Helena fechou a porta devagar, tentando controlar a aceleração repentina do coração.
— Sobre?
Dante se levantou.
Por alguns segundos, ficou apenas observando-a.
— Sobre nós.
Ela segurou a alça da pasta com mais força.
Nos últimos dias, vinha se preparando para esse momento. Sabia que, em algum instante, ele perceberia as mudanças. Não era possível apagar sete anos de casamento sem deixar rastros.
Mesmo assim, manteve a expressão neutra.
— O que tem nós?
Dante caminhou até ela.
Parecia cansado.
Bonito.
Preocupado.
O homem por quem ela havia se apaixonado ainda estava ali, pelo menos na aparência.
Talvez aquilo fosse genuíno.
Talvez existisse uma parte dele realmente incomodada com a distância que crescia entre os dois.
Mas Helena já não sabia distinguir verdade de encenação.
E esse era o maior estrago que a traição havia causado.
A perda da confiança.
— Eu não gosto disso — disse ele.
— Disso o quê?
— Você distante.
A resposta veio rápida.
— Saindo sem me explicar para onde vai. Chegando tarde. Evitando conversar comigo. Dormindo virada para o outro lado da cama.
Helena sustentou seu olhar.
— E como você queria que eu estivesse?
Dante respirou fundo.
— Comigo.
A palavra saiu baixa.
Quase vulnerável.
Por um segundo, Helena sentiu algo apertar dentro do peito.
Quase pena.
Quase compaixão.
Quase.
Mas então as imagens voltaram.
As mentiras.
As mensagens escondidas.
As ausências justificadas por reuniões que nunca existiram.
A amante.
Sua meia-irmã.
Tudo aquilo destruiu qualquer fraqueza que pudesse surgir.
— Eu estou aqui — respondeu.
Dante balançou a cabeça.
— Não está.
Ele deu mais um passo e tocou o peito dela, exatamente sobre o coração.
O gesto era familiar.
Intimista.
Dolorosamente familiar.
— Não aqui.
Helena permaneceu imóvel.
Sentindo o calor da mão dele através do tecido da blusa.
Sentindo também o quanto aquele toque já não significava a mesma coisa.
— Talvez você tenha se acostumado a achar que esse lugar era garantido.
As palavras saíram calmas.

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