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Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu romance Capítulo 11

Helena encontrou Marcelo Diniz em um restaurante pequeno, discreto, escondido em uma rua arborizada longe do circuito social de Dante.

Era o tipo de lugar que homens como seu marido jamais escolheriam para reuniões importantes. Simples demais para impressionar, silencioso demais para aparecer, comum demais para despertar interesse. Por isso mesmo, era perfeito.

Ela chegou cinco minutos antes do horário marcado, usando óculos escuros, um vestido bege de corte reto e o cabelo preso de um jeito prático. Não queria parecer frágil. Não queria parecer desesperada. Havia passado o caminho inteiro repetindo para si mesma que aquela conversa não era sobre destruir Dante. Ainda não. Era sobre entender como proteger a própria vida antes que ele percebesse que ela havia aberto os olhos.

Marcelo já estava em uma mesa no canto quando ela entrou. Levantou-se ao vê-la, com o rosto sério. Era um homem de quarenta anos, discreto, bem vestido sem ostentação, com olhos atentos demais para aceitar respostas fáceis. Helena confiava nele porque Marcelo tinha uma qualidade rara: sabia ouvir sem transformar a dor dos outros em espetáculo.

“Helena”, ele disse, beijando seu rosto com cuidado. “Você está pálida.”

Ela se sentou.

“Eu sei.”

Ele não tentou fazer piada. Apenas chamou o garçom, pediu água e esperou que ela respirasse.

Por alguns segundos, Helena olhou para as próprias mãos sobre a mesa. Ainda usava a aliança. O ouro parecia mais pesado do que na véspera. Pensou em tirá-la ali mesmo, mas não tirou. Ainda precisava que o mundo a visse como esposa de Dante Bellini. Precisava desse papel por mais alguns dias.

“Dante está me traindo”, disse.

Marcelo não pareceu surpreso no sentido vulgar da palavra. Não arregalou os olhos, não soltou exclamações. Apenas ficou mais imóvel.

“Você tem certeza?”

“Tenho.”

“Ele confessou?”

“Não. Eu ouvi uma conversa.”

“Em que contexto?”

Helena contou.

Não tudo de uma vez. Foi organizando os fatos como se montasse um relatório clínico: o aniversário de casamento abandonado, a festa no dia seguinte, Rafael e Dante conversando em italiano, o apelido dado à amante, as falas sobre emoção, novidade, a confiança dela usada como garantia para a mentira. Depois falou de Bianca Salles, da aproximação na festa, das redes sociais, das fotos, das legendas, da possível relação de sangue.

Marcelo ouviu sem interromper.

Quando ela terminou, a água sobre a mesa já havia perdido o gelo.

“Você está grávida”, ele disse, porque Helena havia contado isso no meio da explicação, quase sem perceber.

A mão dela foi ao ventre.

“Estou.”

“Dante sabe?”

“Não.”

“Você pretende contar?”

Helena ficou em silêncio.

A pergunta deveria ter uma resposta simples. Era o filho dele. O casamento, por pior que estivesse, ainda existia no papel e diante da sociedade. Dante tinha direito de saber. Mas o direito dele parecia pequeno quando comparado à forma como havia destruído a confiança que sustentava tudo. Ela não sabia se esconder a gravidez era justo. Só sabia que contar naquele momento seria entregar a parte mais vulnerável de si a um homem que havia aprendido a mentir sem hesitar.

“Não agora”, respondeu.

Marcelo assentiu.

“Certo. Então vamos falar com clareza. Você quer se separar?”

A palavra pousou sobre ela com peso.

Separar.

Divórcio.

Fim.

Durante sete anos, Helena pensou nessa possibilidade apenas como algo distante, quase absurdo. Casais brigavam, cansavam, atravessavam fases ruins. Mas ela nunca havia imaginado organizar a própria saída como quem prepara uma cirurgia delicada.

“Eu quero ter opção”, disse.

Marcelo inclinou a cabeça.

“Essa não é a mesma coisa.”

“Eu sei.”

“Helena, como seu amigo, eu posso te acolher. Como advogado, preciso entender o objetivo. Você quer confrontar Dante e tentar um acordo? Quer pedir o divórcio de forma direta? Quer reunir provas antes? Quer sair de casa? Quer proteger patrimônio? Quer sigilo por causa da gravidez?”

Ela fechou os olhos por um segundo.

Tantas perguntas. Todas necessárias. Todas cruéis.

“Eu quero que ele não consiga me manipular quando perceber que me perdeu.”

Marcelo permaneceu sério.

“Então precisamos de provas.”

“Fotos?”

“Fotos ajudam. Mensagens, registros de deslocamento, testemunhas, documentos financeiros, gastos suspeitos. Mas cuidado. Nada de invadir celular, nada de contratar alguém de forma ilegal, nada que possa se voltar contra você. A raiva precisa ser inteligente.”

Helena soltou uma risada triste.

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