Helena Barbosa estava arrumando o cabelo de Estrela, fazendo pequenas tranças, quando ouviu a filha mencionar “Valentina Lacerda”. Suas mãos pararam no ar por um instante.
— Você gosta muito da Valentina Lacerda?
Ela perguntou, olhando para a filha.
Estrela Freitas inclinou a cabeça, pensou um pouco e, a princípio, assentiu. Mas, ao lembrar que fazia muito tempo que Valentina Lacerda não brincava com ela, e considerando aquelas palavras que vovó Tereza dissera, logo balançou a cabeça em negação.
Ela então se virou e olhou para Helena Barbosa, de repente abraçando o pescoço da mãe.
— Eu gosto mais de você, mamãe...
Porque essa era sua verdadeira mãe.
Ela era filha da mãe, não da Valentina Lacerda.
Valentina Lacerda, no futuro, teria outros filhos com o papai. E naquele momento, ela seria deixada de lado, ninguém mais ligaria para ela.
Só a verdadeira mãe nunca a abandonaria.
Helena Barbosa não fazia ideia desses pensamentos de Estrela. Ficou apenas muito feliz de ver a filha se aproximando dela com tanto carinho.
Ela abraçou Estrela e lhe deu um beijo no rosto.
— Eu também amo você! Você é o meu maior tesouro!
Benjamin Freitas chegou justamente nesse instante.
Parado do lado de fora do quarto, observou mãe e filha pela porta entreaberta, sem coragem de interromper a cena.
Com delicadeza, Benjamin fechou a porta do quarto e caminhou até o fim do corredor, onde acendeu um cigarro.
A fumaça densa invadiu seus pulmões, mas nenhum pouco dissipou a inquietação de seus pensamentos.
Helena queria cuidar de Estrela sozinha. Ela sempre fora independente, mas agora, tendo que cuidar de Estrela, Benjamin sentia certa preocupação.
Mas Estrela, afinal, era filha dela.
...
Saindo do hospital, Valentina Lacerda voltou para seu apartamento.
Desligou o celular e se trancou no escritório para trabalhar em sua tese.
O tema era sobre como usar novos materiais para compensar as diferenças de brilho entre pigmentos tradicionais e esmaltes antigos.
Pensando nos processos anteriores, ela cogitava usar sinterização a plasma nos pigmentos, e, aproveitando tecnologias modernas, polir os pigmentos até o nível submicrométrico. Assim, conseguiria manter o erro na saturação das cores abaixo de 3%.
Se essa técnica desse certo, poderia remediar muitos dos problemas de peças de cerâmica que, por falta de pigmento, não podiam ser restauradas.
Preocupada, telefonou para o pai.
A mãe estava acompanhando o pai em uma viagem a trabalho. Se algo tivesse acontecido, ele com certeza saberia.
O que Valentina não esperava, era quem atenderia a ligação.
Assim que desligou, foi direto para o hospital.
Era horário de pico. As vias elevadas da Cidade Capital estavam completamente engarrafadas, e Valentina só queria chegar o mais rápido possível.
Depois de mais de uma hora, finalmente estacionou em frente ao hospital.
Saiu apressada, usando apenas um suéter fino. Assim que abriu a porta do carro, uma rajada gelada pareceu atravessá-la até os ossos.
Sem se importar com o frio, correu para o pronto-socorro.
No último andar do hospital, o elevador se abriu com um “ding”, e Valentina saiu às pressas.
A enfermeira havia dito que a mãe fora levada para um quarto no topo do prédio. Seguindo a indicação do número, Valentina logo encontrou o local.
Ao abrir a porta, viu Talita Silva sentada ao lado da cama, descascando uma maçã para a mãe.
O olhar de Valentina passou rapidamente por um tom de frieza, mas, para não preocupar a mãe, logo voltou ao normal.

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