Era noite alta, e ouvir aquele tipo de choro era, de fato, assustador.
Felizmente, os postes à beira do lago iluminavam bem o caminho, e de vez em quando, uma equipe de seguranças fazia ronda pelo local.
— Querida, não sei por quê, mas essa voz me soa familiar — comentou Valentina Lacerda, empurrando a cadeira de rodas da mãe mais alguns passos à frente, aproximando-se ainda mais do som.
— Também acho, parece que já ouvi esse choro em algum lugar — respondeu Tereza Rodrigues.
O choro vinha das margens do lago, sob uma das árvores com folhas caídas.
Ali, o caminho era de pedras arredondadas, dificultando o avanço da cadeira de rodas. Valentina então deixou a mãe ao lado da trilha, acionou o freio e resolveu ir sozinha até a árvore.
À medida que se aproximava, o soluço da criança tornava-se cada vez mais claro. Logo, Valentina viu uma pequena figura encolhida sob a árvore.
Pelo formato das costas, sentiu um frio na espinha. Hesitante, perguntou:
— Estrela?
A menina levantou o rosto, ainda banhado em lágrimas, e Valentina Lacerda finalmente confirmou: era mesmo Estrela. E, para seu espanto, a pequena usava apenas um pijama leve.
Numa noite fria como aquela, mesmo um adulto sofreria com o vento gelado junto ao lago, quanto mais uma criança tão pequena.
Sem hesitar, Valentina tirou seu próprio casaco e envolveu Estrela.
— O que faz aqui? Venha, sua carinha está gelada! Se pegar um resfriado, como vai ser?
Naquele momento, Valentina não pensou duas vezes. Mesmo que fosse uma criança desconhecida, jamais a deixaria ali, no frio, tão tarde.
— Senhora… — murmurou Estrela, surpresa ao reconhecer Valentina. Mas, ao se lembrar do que o pai dissera, seu rosto se contraiu de novo, temendo que a tia Valentina agora também não gostasse dela.
Afinal, se Valentina não queria ver o pai de Estrela, provavelmente também não queria ver a filha dele.
O brilho de alegria se apagou rapidamente do rosto da menina, que baixou os olhos e sequer ousou encarar Valentina.
Temia ver, no olhar dela, qualquer sinal de rejeição.
Valentina, por sua vez, não percebeu os pensamentos da criança. Pegou-a pela mão e a guiou para fora dali.

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