Naquele instante, Valentina Lacerda sentiu como se algo dentro dela tivesse se despedaçado.
Ah, era o seu orgulho.
Marcos Dourado estava ali, como uma testemunha silenciosa.
A testemunha daquela Valentina Lacerda orgulhosa, brilhante, cheia de excelência.
Apesar de não querer admitir, era verdade: depois de tudo que aconteceu, ela optara por enfiar a cabeça na areia, como um avestruz.
Foi por isso que ela preferiu ficar sozinha em Cidade Capital, enfrentando Benjamin Freitas, a voltar para Cidade R e pedir ajuda à mãe e ao irmão.
Por um lado, não queria preocupá-los, não queria envolvê-los em seus problemas; por outro, era aquele orgulho tolo que a impedia.
Ela se enganava, tentando acreditar que a mulher fracassada, a “Sra. Freitas”, só existia em Cidade Capital.
Aquela Valentina Lacerda jovem, confiante, cheia de luz, continuava levando uma boa vida em Cidade R.
A Valentina Lacerda bem-sucedida e a Sra. Freitas fracassada.
Valentina Lacerda fazia essa separação dentro de si.
Como se, assim, pudesse proteger o mínimo de dignidade que ainda lhe restava.
Como se pudesse, vestindo a identidade de Sra. Freitas, apostar tudo e ir até o fim na batalha contra Benjamin Freitas.
Poderia reservar a compostura para “Valentina Lacerda”.
Mas agora, Marcos Dourado lhe perguntou se ela ainda pretendia continuar vivendo com Benjamin Freitas.
O muro que Valentina Lacerda havia erguido em seu coração desmoronou de uma só vez.
As duas almas, que antes pareciam separadas, agora se confundiam.
Ela se sentia uma fracassada, por inteiro.
A mão de Valentina Lacerda tremia levemente quando ela pegou a taça sobre a mesa.
O líquido forte desceu queimando sua garganta, e a ansiedade que fervia em seu peito diminuiu um pouco.
Ela forçou um sorriso.
— Já estou resolvendo a papelada.
Marcos Dourado soltou um suspiro de alívio.
— Ainda bem. O Benjamin Freitas não está à sua altura!
Valentina Lacerda não respondeu.
Perdera o apetite; desculpou-se, dizendo que tinha outros compromissos, e se despediu apressada de Marcos Dourado.
Dentro do carro, Valentina Lacerda olhava as luzes de néon passando pela janela, sentindo o peito apertado, como se não pudesse respirar.
Sabia que, momentos atrás, tinha sido falsa consigo mesma.
Já não era mais aquela Valentina Lacerda de antes; agora, era uma mulher abandonada, que discutira em público com a ex-mulher do marido.



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