De volta à sala de estar, o café foi servido. Giorgio e Ada gargalhavam com as histórias, enquanto Vittoria fuzilava Valério com o olhar. Percebendo que o terreno estava preparado, Valério limpou a garganta, aprumou a espinha e soltou a bomba:
— Senhor Giorgio, Dona Ada... O real motivo da minha visita esta noite é que eu estou profundamente apaixonado pela filha de vocês. E vim pedir permissão para cortejá-la.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Giorgio quase engasgou com a xícara de porcelana. Ada paralisou. Vittoria levantou-se num salto tão violento que a mesa de centro balançou.
— Você enlouqueceu de vez, Valério?
Esbravejou ela, gesticulando no ar.
— Como você ousa vir na casa dos meus pais e soltar um absurdo desses? Você quer me matar de vergonha? Qual é o seu problema? Perdeu a noção do ridículo ou esqueceu de tomar seus remédios hoje?
— Calma, minha filha, por favor!
Interveio Giorgio, levantando as mãos antes que a sala virasse uma arena de gladiadores. Ele encarou o jovem com desconfiança:
— Mas olhe, Valério, nesse ponto a Vittoria tem razão. Vocês dois nunca se deram bem. Desde crianças vivem se matando! Você passou a vida infernizando a garota com aquele apelido ridículo e agora aparece dizendo que quer cortejá-la? Explique-se, rapaz.
Valério adotou uma expressão de dolorosa sinceridade:
— Senhor Giorgio, Dona Ada, não há muito o que explicar... Aconteceu. Eu me apaixonei. Quero uma chance de fazer as coisas do jeito certo. Por isso tomei a liberdade de vir até aqui.
— Pai, mãe, ele tá zombando da cara de vocês e da minha.
Protestou Vittoria, bufando.
— Não acreditem em uma só palavra!
Ada, subitamente conectando pontos que só existiam na sua própria cabeça, olhou para a filha com os olhos arregalados de empolgação:
— Vittoria Mancini... Há quanto tempo você está namorando o Valério às escondidas sem nos contar nada?
Antes que Vittoria pudesse gritar que preferia namorar um cacto, Valério deu um passo à frente, assumindo a narrativa:
— Não brigue com ela, Dona Ada. A culpa é minha. Há alguns meses, a Vittoria me salvou de uma situação terrivelmente constrangedora. No impulso da gratidão, acabei dando um beijo nela... E desde aquele segundo, eu nunca mais consegui tirá-la da cabeça.
Virando para Vittoria disse:
— Eu mudei, Vittoria. Por você, eu quero largar essa vida de libertinagem. Eu juro que quero ser um homem responsável!

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