Como Maia insistia muito, Vicente Freitas não teve escolha a não ser concordar em contar uma história de ninar para ela naquela noite. Maia ficou imediatamente feliz e disse animada para o pai: — Então eu vou tomar banho! Papai, espera a Maia, tá? — Tudo bem. Vicente olhou com carinho para a pequena. Maia virou-se e saiu puxando a avó. Nesse momento, Jobson Andrade e o velho mestre não puderam deixar de olhar para ele algumas vezes, com olhares que perguntavam: Vai ficar assim mesmo? Vicente encarou os dois com serenidade e disse: — Esperarei a Maia adormecer e depois vou embora. O velho comentou num tom irônico: — Receio que não seja a primeira vez que dorme aqui, não é? Jobson também acrescentou baixinho: — Aquelas roupas no quarto de hóspedes, nem sei de quem são. As palavras tinham um alvo claro, mas ninguém rasgava o véu da discrição. Vendo os dois mais velhos entrarem na sala, Lília permaneceu parada, com as orelhas vermelhas e uma expressão de vergonha e constrangimento. Já Vicente sorriu e perguntou: — Por que não escondeu direito? Lília deu dois passos em direção a ele e baixou os olhos: — Não precisava. Além disso, eles já passaram por isso, sabem como é. A relação deles era clara para os mais velhos, e ela nunca pensou em esconder nada. Vicente, satisfeito com a resposta, tocou levemente o lóbulo da orelha dela, como se brincasse com seu gatinho. Lília estremeceu levemente e puxou a mão dele, reclamando dengosa: — Todo mundo está aqui! Vicente parou de provocá-la e segurou a mão dela. Só depois de um bom tempo entraram na casa. Enquanto Maia tomava banho, Jobson, que estava ocioso, disse a Vicente: — Sr. Freitas, aceita uma partida? Ouvi dizer que você agradou o velho agora há pouco, deixe-me ver como você faz isso. Vicente sorriu: — Por favor. Os dois sentaram-se diante do tabuleiro e logo começaram a batalha. Lília preparava um chá de ervas calmante para o mestre ao lado, enquanto observava o jogo. Ela entendia um pouco de xadrez e podia ver que cada movimento de Vicente era feito com facilidade, como se ele já tivesse calculado os próximos dez passos antes de mover uma peça. Não importava como as peças pretas de seu pai se moviam, ele tinha uma resposta. O velho também observava, cada vez mais admirado e surpreso com a habilidade dele. Antes, quando jogava, estava imerso na partida e não sentia tanto. Agora, observando de fora, via claramente a visão global e o controle estratégico de Vicente. O velho era fanático por xadrez; percebeu desde o início que Vicente plantava armadilhas e formava um cerco silencioso. Quando o oponente percebia, já estava encurralado. A disputa foi acirrada, e a habilidade de Jobson também era alta. No entanto, no final, Vicente perdeu por um movimento para Jobson. Jobson olhou para o tabuleiro, repassando o jogo, e depois de um tempo entendeu por que o velho dissera aquilo. Originalmente, se Vicente seguisse sua estratégia, teria vencido. Mas ele, sem que ninguém percebesse, conduziu suas próprias peças para a armadilha de Jobson. Foi tão sutil que o vencedor só percebeu depois. Jobson, ao descobrir isso, não se irritou; pelo contrário, ficou animado. — Interessante, muito interessante! Vamos, vamos jogar outra! Vicente não estragaria o prazer dele e recolheu as peças. Desta vez, Jobson avisou: — Não me deixe ganhar de novo. O xadrez exige aquela sensação de luta até o fim, senão não tem graça. — Combinado. — Vicente não o contrariaria. Logo, Jobson começou dominando um quarto do tabuleiro. Sua abertura foi sólida. Mas diante dele estava Vicente, jogando a sério. O resultado foi uma derrota indiscutível para Jobson. — Muito bom! Sua habilidade no xadrez é incrível! — Jobson estava radiante. Honestamente, quando a filha se casou no passado, ele imaginara jogar xadrez com o genro. Infelizmente, esse desejo nunca se realizara. A família Silva os desprezava, e Ronaldo Silva jamais perderia tempo com isso. Agora, esse jovem o conquistara completamente com sua habilidade e respeito! Ele começava a aprovar esse 'genro'. Nesse momento, Maria Lacerda desceu com Maia, que já havia tomado banho. Vicente olhou a hora; estava tarde. Ele se levantou e disse aos mais velhos: — Tio Jobson, vamos parar por aqui hoje. Vou levar a Maia para dormir. Jobson não o impediu e sorriu: — Certo, vá lá. Ele ainda queria rever a partida anterior. Vicente se despediu com um aceno e pegou Maia no colo.

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