Larissa era fraca; então eles podiam sacrificá-la sem culpa.
Beatriz era excelente; então ela merecia ser sacrificada.
O estudo pelo qual ela se esgotara deveria ser entregue a Larissa, e agora ainda queriam, pela família Andrade, vendê-la a um homem velho.
A “lógica” de bandido era tão absurda que Beatriz quase riu de raiva.
— O Matheus tem razão.
Lucas também se apressou em apaziguar. Entre os irmãos da família Andrade, ele era o único que ainda guardava algum resquício de consciência.
— Beatriz, não fala por impulso. O pai, a mãe e o Miguel só se confundiram por um momento. No fundo, eles ainda se importam com você.
— Senta, vamos conversar direito, como família. Esclarecemos tudo e pronto.
Larissa, de imediato, entrou no jogo: espremeu algumas lágrimas e falou entre soluços:
— É… irmã… a culpa é minha, eu fui horrível… se você quer culpar alguém, culpa a mim. Só não fica com raiva do papai e dos seus irmãos, por favor…
Aquela aparência frágil e lastimosa despertou na hora o instinto protetor de Miguel.
Ele puxou Larissa para trás de si e encarou Beatriz com fúria.
— Beatriz! Para de falar com ironia! O que a Larissa te fez?!
— Eu te digo: se não fosse por ela, a minha perna já estaria perdida!
Ele apontou para a própria perna direita, os olhos cheios de ódio.
— Naquele acidente, os médicos disseram que não tinha jeito. Foi a Larissa! Ela correu por várias cidades, implorou a todo mundo, e conseguiu o remédio que salvou a minha perna!
— E você?!
— Você, a irmã de sangue… além de me olhar uma vez na porta do quarto, o que fez por mim?!
Beatriz olhou para o rosto dele, distorcido pela raiva, e sentiu náusea.
Sim.
Ela não fizera nada.
Ela apenas se trancara no laboratório por três dias e três noites, revirara referências médicas, fizera dezenas e dezenas de testes e, por fim, extraíra de uma planta rara um composto capaz de reparar nervos danificados.
Ela apenas entregara o resultado, anonimamente, ao médico responsável — e salvara a perna dele.
E Larissa?
Larissa apenas encenara uma busca por “várias cidades” e, ao voltar, dissera ao médico que aquele remédio fora ela quem encontrara.
Isabel, com as mãos na cintura, exibia um sorriso satisfeito.
— Isso mesmo! Quer transferir RG? Só na próxima vida! Quero ver, sem RG, como você vai se desvincular desta casa!
Ao ouvir aquela teimosia quase criminosa, Beatriz não demonstrou a menor inquietação.
Pelo contrário: chegou a sorrir, de leve.
Diante de todos, ela tirou o celular e fez uma ligação.
— Adv. Álvaro?
— Sou eu, Beatriz.
— Sim. Eu estou na família Andrade. Eles se recusam a me entregar o meu RG.
— Certo. Obrigada.
Depois de desligar, ela observou os rostos da família Andrade, cada um com uma expressão diferente.
— Eu já constituí advogado e fiz a denúncia. O advogado disse que RG é documento pessoal e legal; ninguém pode retê-lo sem justificativa. Caso contrário, configura apropriação indevida.
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