Beatriz finalmente falou.
A voz saiu baixa, fria.
— Já terminou?
— Você... — Isabel engasgou, o peito travado.
— Se terminou, saia da frente.
Beatriz passou por ela e subiu.
Isabel tremia de ódio e berrou para as costas dela:
— Sua ingrata! Sem educação! Some daqui! Pegue suas coisas e suma!
Beatriz não reagiu.
No sótão, ela encontrou a caixa de madeira coberta de poeira.
Ao abri-la, viu os livros favoritos da mãe, alguns vestidos discretos e um álbum de fotos.
Na primeira página, sua mãe jovem segurava Beatriz recém-nascida, sorrindo com doçura e satisfação.
No canto inferior direito, havia uma frase escrita com letra delicada:
[Minha Beatriz, que você tenha uma vida segura e feliz, e que o mundo a trate com ternura.]
A ponta dos dedos de Beatriz roçou a frase.
Os olhos, sem controle, arderam.
Mãe, desculpa.
A sua Beatriz te decepcionou.
Ela fechou o álbum, abraçou a caixa e saiu sem olhar para trás, sem lançar um último olhar àquele “lar”.
Quando o carro deixou o condomínio, ela viu pelo retrovisor a construção luxuosa ficando cada vez menor.
A humilhação e o último fio de apego àquela casa foram cortados de vez.
No dia seguinte à partida de Beatriz da família Andrade, o Grupo Andrade enfrentou um grande problema.
O plano de abertura de capital travou no último momento.
Quando todos já estavam sem saída, Larissa — que até então, num canto, descascava uma maçã em silêncio — falou com suavidade:
— Pai, irmãos... eu tenho uma ideia, ainda meio crua. Não sei se devo dizer.
Todos voltaram os olhos para ela.
Felipe Andrade apressou-se:
— Larissa, diga.
Larissa mordeu o lábio, como se estivesse preocupada.
— Eu ouvi dizer... que Sr. Henrique é muito tradicional. A esposa dele faleceu de doença há alguns anos e ele quer encontrar uma mulher instruída, com presença, para se casar de novo.
Ela parou e observou cuidadosamente as reações.
— Sr. Henrique não vive dizendo que quer uma esposa “de cultura”?
— A minha irmã... apesar do divórcio e do falatório, a aparência e a formação dela são das melhores de Capital.
— Se... se a gente conseguisse aproximar a minha irmã e Sr. Henrique, ele não viraria “da família”? Aí ele certamente ajudaria a nossa abertura de capital com todas as forças.

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