— Se eu recuar hoje por causa dele, amanhã vai ter o doutor fulano, o doutor sicrano.
— Neste mundo tem gente demais querendo atalhos, querendo pisar nos outros para subir.
— Eu não vou conseguir fugir disso.
Ela fez uma pausa e fitou o céu azul intenso além da janela; o olhar estava límpido como gelo.
— Então eu não vou mais fugir.
Desta vez, ela não só retomaria tudo o que era seu, como faria pagar o preço a todos que tentassem calculá-la.
Clarinda, ouvindo aquela voz calma e poderosa, ficou muda por um instante.
De repente, percebeu: Beatriz já não era a mesma.
O coração que um dia, por Heitor e pela família Andrade, fora macio a ponto de ser amassado por qualquer um, agora tinha sido temperado até virar diamante.
— Certo! Você decidiu, eu te apoio! — Clarinda rangeu os dentes. — O que você precisa que eu faça? Quer que eu chame uns amigos e a gente dê um susto nele na saída?
Beatriz riu; a sombra no peito se dissipou um pouco.
— Não precisa. Para esse tipo de gente, usar o punho é barato demais.
Ela desligou e voltou na direção do próprio escritório.
O caminho ainda era longo.
Mas ela já estava pronta.
Ao mesmo tempo, na Mansão Andrade.
Uma van de luxo parou lentamente diante do portão.
A porta se abriu e uma mulher com óculos escuros enormes, coberta de joias e brilho, desceu cercada por empregados.
Era Isabel, mãe de Larissa e madrasta de Beatriz.
Ela passara um tempo na Europa, comprando sem freio, e só voltara naquele dia.
Assim que entrou, Isabel franziu o nariz com nojo.
— Eu saio por poucos dias e a casa fica com esse cheiro de azar?
— Forte? — Isabel soltou uma risada fria. — Por mais forte que seja, não passa de uma cadela enxotada pela família Monteiro. Mulher divorciada tem o nome sujo. Forte até onde?
O ódio de Isabel por Beatriz era visceral.
Quando se casara com a família Andrade, as ações e o fundo fiduciário deixados pela mãe de Beatriz tinham se tornado uma farpa cravada no coração dela.
Por que a mãe daquela desgraçadinha, mesmo morta, ainda poderia deixar tanta coisa para a filha, enquanto a sua própria menina tinha de viver lendo o humor dos outros?
Por isso, desde cedo, ela ensinara Larissa a chorar, a se fazer de frágil, a tomar.
Tudo o que fosse de Beatriz, deveria ser arrancado.
Larissa não a decepcionara.
Apoiando-se no ombro de Isabel, ela pegou o celular, abriu a matéria sobre o artigo de Beatriz e entregou.
— Mãe, olha... agora ela é uma cientista famosa no mundo. Tem muita gente dizendo... dizendo que eu a acusei injustamente antes...
Isabel arrancou o telefone da mão dela e leu rápido.
Ao ver expressões como “elogiada por vencedor do Nobel” e “jovem gênio”, o rosto dela se fechou de forma sinistra.

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