Ela apanhou o manuscrito e apertou-o contra o peito. Com a voz rouca, disse:
— Entre.
A porta foi aberta. Um homem de óculos, de terno impecável, entrou. Atrás dele, vinha um médico carregando uma maleta.
Bruno falou com respeito:
— Srta. Beatriz, a senhora ficou inconsciente por dois dias. Teve múltiplas contusões em tecidos moles e uma febre baixa. O Sr. Guilherme pediu que, se a senhora precisasse, o médico poderia examiná-la primeiro.
Beatriz não recusou.
Ela realmente precisava daquilo.
Após a avaliação, constatou-se que ela apenas sofrera de desnutrição prolongada somada a exaustão extrema. O médico prescreveu alguns medicamentos e, em seguida, foi conduzido para fora por Bruno, com a mesma cortesia com que entrara.
Beatriz sustentou o corpo como pôde e, diante de Bruno, curvou-se profundamente.
— Bruno, obrigada. E, por favor, agradeça ao Sr. Guilherme por ter salvado a minha vida.
— Mas...
Ela ergueu a cabeça. O olhar, embora apagado, trazia uma firmeza incontestável.
— Eu preciso ir embora agora.
Bruno pareceu já esperar por aquilo. Não houve surpresa em sua expressão.
— Srta. Beatriz, não precisa ficar em guarda. A senhora é uma convidada do Sr. Guilherme. Aqui, está absolutamente segura.
Segura?
Beatriz sorriu com amargura.
Aquela palavra, para ela, já havia virado um luxo.
família Andrade, família Monteiro — os lugares que ela julgara mais seguros tinham sido justamente os que lhe haviam causado os golpes mais fatais.
Tudo aquilo a fazia acreditar, com ainda mais convicção, que neste mundo nunca existia bondade sem motivo.
Ela tinha medo.
Seu tom continuou gentil, mas o peso das palavras era inegável.
— Inclusive o bloqueio profissional em toda a área, articulado pelo Sr. Heitor por meio de contatos. E também a violência de opinião pública na internet contra a senhora.
— E inclusive... o plano da família Andrade de se apoderar dos bens em seu nome, alegando “transtorno mental”.
A cada frase, o rosto de Beatriz empalidecia um pouco mais.
As feridas que ela tentara esconder com todas as forças — as mais humilhantes — eram abertas ali, com uma facilidade quase descuidada.
Então era isso: toda a luta e todo o desespero dela já tinham sido vistos por alguém.
Ela se sentiu transparente, sem qualquer lugar para se esconder.
Percebendo o desconforto, Bruno esclareceu de imediato sua intenção.
Com solenidade, empurrou o documento na direção dela.
— Srta. Beatriz, por favor, não interprete mal. Eu apenas gostaria de, em nome do Sr. Guilherme, apresentar formalmente uma proposta de contratação.

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