A sala estava vazia.
Ela ia subir quando ouviu vozes no escritório.
— Mano, a reputação da Beatriz já está desse jeito… aquelas cinco por cento das ações que o vovô deixou pra ela no testamento não é desperdício? — era a voz de Larissa.
Beatriz parou.
Testamento? Ações?
Ela nunca soubera que o avô tinha deixado algo para ela.
Em seguida, veio a voz de Matheus.
— O testamento já foi registrado em cartório. A gente não pode mexer.
O tom de Larissa ficou mais urgente:
— E o que a gente faz então? Vai ficar olhando ela levar esse dinheiro embora? São milhões!
— Calma. — Matheus soltou uma risada fria. — Ela está sendo massacrada na internet, perdeu o trabalho. Heitor me ligou e disse que cortou a fonte de dinheiro dela. Pelo que ele falou, ela anda emocionalmente instável.
— A gente pode pedir na Justiça, alegando que ela está “mentalmente incapaz de administrar o próprio patrimônio”, pra virar tutor legal dela.
— Aí, as ações no nome dela… ficam sob nossa administração.
Beatriz sentiu o corpo inteiro gelar.
Eles iam até atrás do pouco que o avô deixara…
Então era isso.
Eles não a amavam, não a acolhiam, não a consolavam. Ao contrário: queriam aproveitar o momento em que ela estava no fundo do poço para espremer, pouco a pouco, cada recurso que ainda restava — e depois empurrá-la de vez para o abismo.
Família?
Que piada.
Ela recuou, cambaleante, e sem querer esbarrou num vaso atrás de si.
— Crash!
— Quem está aí?! — a porta do escritório se abriu de supetão.
Na cabeça dele, era a existência de Beatriz que o tornava tão desprezível.
— Já que você gosta tanto de se agarrar à família Andrade, eu vou te ajudar. Vou cortar de vez qualquer ilusão!
Matheus a arrastou escada acima, chutou a porta do quartinho dela.
O quarto quase não tinha nada, só uma mala velha, meio gasta.
Era a mala que ela trouxera da casa da avó no interior. Lá dentro estavam todos os seus tesouros: uma foto da mãe, uma boneca de pano costurada pela avó e… uma caixa inteira de rascunhos, cadernos e anotações de pesquisa de anos.
Matheus nem olhou. Pegou a mala e desceu.
— Matheus, não! — Beatriz entendeu o que ele ia fazer e se jogou, desesperada, tentando arrancar a mala das mãos dele.
Matheus agiu como se não tivesse ouvido, e continuou descendo.
— Eu te imploro!
Beatriz foi atrás, mas pisou em falso num degrau; o tornozelo virou e a dor explodiu.
Mesmo assim, ela ignorou a dor e estendeu a mão, tentando alcançá-lo.

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