No elevador, Kellen ficou parada na posição mais próxima da porta, com toda a atenção voltada para Vitória, sem perceber que, entre a multidão atrás dela, Loreta também estava presente.
Logo, o elevador chegou ao térreo.
Kellen tomou Vitória nos braços e retornou ao prédio da emergência, enquanto Loreta seguia atrás, nem muito próxima, nem muito distante, presenciando pessoalmente o momento em que “mãe e filha” entraram no quarto.
Depois de conversar discretamente com a enfermeira, Loreta confirmou que a menina chamada Vitória chamava Kellen de mãe, e Kellen não negou nem corrigiu essa afirmação.
Loreta sentiu como se tivesse descoberto um grande segredo, e não conseguiu esconder a animação nos olhos.
Se Délio soubesse que Kellen mantinha uma filha fora do casamento, em segredo...
Se soubesse antes desse ponto fraco de Kellen, nunca teria permitido que Noemia se arriscasse daquela maneira, acabando com a perna amputada.
Ao pensar nisso, o olhar de Loreta se tornou rancoroso e sombrio, atribuindo a Kellen toda a culpa pelo que aconteceu à sua filha.
Ela conteve a vontade de confrontar Kellen ali mesmo, para não alertá-la e estragar tudo.
……
Kellen levou Vitória de volta ao quarto e lhe deu comida.
Vitória não estava com apetite, comeu apenas algumas colheradas, logo balançou a cabeça, recusando-se a continuar, mostrando sinais de sono. Fechou os olhos e, sem precisar de consolo, adormeceu em poucos minutos.
Kellen não deu muita importância, achando que Vitória apenas estava cansada, que não descansara bem na noite anterior e acordara cedo naquele dia.
Ela permaneceu quieta, sentada na cadeira ao lado da cama, sem se afastar nem por um instante, as mãos pousadas instintivamente sobre o ventre, exalando uma delicada e profunda aura materna.
Desde a conversa sincera com Amara na noite anterior, Kellen se sentia muito mais leve, sem precisar mais sofrer com escolhas dolorosas.
Assim que terminasse o processo de divórcio, deixaria Cidade Atlântico Verde e se estabeleceria em outro lugar, para cuidar da gravidez em paz.
O mundo era grande, certamente haveria um lugar para ela e seus filhos.
Perto do meio-dia, o resultado dos exames de Vitória ficou pronto.
O médico chamou Kellen especialmente ao consultório.
Sentaram-se frente a frente. Kellen percebeu que algo estava errado no ambiente e quebrou o silêncio primeiro.
“Doutor, acredito que os resultados dos exames estejam normais, não?”
O médico revisou repetidas vezes os resultados, especialmente o laudo do exame de sangue, com expressão grave e pesarosa.
“Tenho que lhe contar o resultado, por favor, prepare-se psicologicamente.”
Ao ouvir isso, o coração de Kellen disparou, pressentindo algo ruim.
“Por favor, não me assuste, o que aconteceu com a Vitória?”
Mesmo sem formação médica, sabia dos graves riscos da leucemia, e que, fora o transplante de medula óssea, não havia outro tratamento realmente eficaz.
Por outro lado, o transplante de medula não era algo simples.
A chance de compatibilidade era maior entre parentes consanguíneos diretos, mas o problema era que ela não sabia quem eram os pais biológicos de Vitória. A quem recorrer?
Kellen saiu do consultório sem saber como, com os resultados apertados nas mãos, encostou-se à parede do corredor, tomada de ansiedade e confusão.
Na enfermaria.
Loreta trouxe uma notícia bombástica.
“Kellen tem uma filha fora do casamento, está agora sendo atendida na emergência. Avisem Délio imediatamente, que ele venha resolver pessoalmente.”
“Agora Kellen está acabada, não tem salvação nem se um santo aparecer.”
Noemia achou inacreditável, pensou que Kellen só poderia estar louca de coragem para esconder algo tão grave da família Guerra. Ela não tinha medo de morrer?
“Mãe, a senhora só pode estar brincando, como Kellen teria coragem de fazer isso.”
“Por que não teria? Ouvi com meus próprios ouvidos a garotinha chamá-la de mãe. Ainda fui perguntar à enfermeira da emergência, não tem erro.” Loreta afirmou com convicção.
“E a menina tem uns três ou quatro anos, pelo que vi. Isso significa que Kellen provavelmente engravidou antes de casar. Essa criança, com certeza, não é da família Guerra.”

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