POV: Chiara
O trajeto de volta para a mansão foi feito sob uma vigilância que ainda me deixava inquieta. Olhar pelo vidro fumê do carro e ver os outros veículos de escolta fechando qualquer aproximação era um lembrete constante de que a minha vida, agora, estava ligada a engrenagens muito maiores e mais perigosas do que eu jamais imaginei. No entanto, meu coração estava mais leve. As palavras do Dr. Arcuri ainda ecoavam na minha mente, trazendo uma esperança que eu não sentia há meses. Saber que meu pai estava reagindo tão bem ao tratamento era o combustível que eu precisava para suportar qualquer outra pressão.
Assim que entramos na mansão, o ar condicionado gelado me recebeu, contrastando com o calor lá fora. Sofia subiu direto para o seu quarto, dizendo que precisava trocar de roupa, enquanto eu caminhava em direção à cozinha. Encontrei Francesca organizando alguns talheres com sua precisão quase robótica.
— Francesca? — chamei.
Ela se virou lentamente, as mãos cruzadas à frente do corpo, com aquela expressão rígida que parecia nunca relaxar.
— Sim, senhorita Chiara?
— Onde está a Giulia? Não a vi na sala.
— A senhorita Giulia está na área da piscina desde que terminaram o café — respondeu de forma seca.
— Certo. Aproveitando, gostaria de pedir o almoço. Hoje estou com vontade de algo mais fresco... talvez um risoto de limão siciliano acompanhado de medalhões de filé com crosta de ervas. E uma salada verde bem caprichada. Pode ser?
Percebi o leve repuxar no canto da boca de Francesca, um sinal claro de que minha presença — e o fato de eu estar dando ordens — a incomodava profundamente. Ela estava acostumada a uma casa comandada apenas pelo silêncio e pelas vontades esporádicas de Massimo, e eu era um elemento novo que ela ainda não conseguia digerir. Decidi ignorar o mau humor dela. Se eu ia ser a senhora daquela casa, precisava começar a agir como tal, mesmo que isso custasse a paciência da governanta.
— Providenciarei, senhorita — disse ela, retirando-se com passos firmes.
Deixei a cozinha e segui para a área externa. O sol brilhava intensamente, refletindo na água azul cristalina da piscina. Giulia estava lá, boiando tranquilamente com os olhos fechados. Aproximei-me e sentei-me em uma das espreguiçadeiras de madeira nobre, retirando minhas sandálias.
— Vida difícil essa, hein? — brinquei.
Sofia, alheia ou talvez muito ciente do efeito que causava, aproximou-se com um sorriso travesso e deu um mergulho elegante, saindo logo em seguida perto de Giulia.
— A água está perfeita! Chiara, vamos, entra também! — Sofia me chamou, jogando um pouco de água na minha direção.
— Ah, não... hoje eu passo — respondi, forçando um sorriso. A verdade é que uma pontada latejante começava a surgir atrás dos meus olhos. — Comecei com uma dor de cabeça chata. Acho que vou tomar um banho e descansar um pouco antes do almoço. Aproveitem vocês duas, divirtam-se.
— Tem certeza, amiga? Posso ir com você se precisar de algo — Giulia disse rapidamente, talvez querendo escapar daquele clima estranho que ela mesma sentiu.
— Não precisa, de verdade. Fiquem aí. Vejo vocês na mesa.
Saí da área da piscina sentindo o olhar das duas nas minhas costas. Quando cheguei ao meu quarto — ou melhor, ao quarto de Massimo —, a sensação de isolamento foi um alívio. Tomei um banho morno, deixando a água escorrer e levar um pouco da tensão acumulada. Depois, vesti um robe de seda e me deitei na imensa cama, fechando os olhos.

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