POV: Massimo
O quarto do hospital parecia menor a cada hora que passava. O cheiro de éter e desinfetante barato misturava-se ao calor abafado da tarde, criando uma atmosfera opressiva. Adrian estava finalmente desperto por completo. O nevoeiro da sedação pesada havia se dissipado, deixando em seu lugar olhos que, embora cansados, já carregavam a lucidez afiada que caracterizava a nossa Tríade. Ele tentava se ajeitar nos travesseiros, mas cada movimento era acompanhado por um suspiro contido de dor.
Matteo estava sentado na beira da janela, observando o movimento lá fora, enquanto eu permanecia ao pé da cama, vigiando meu irmão como se minha presença pudesse acelerar sua cura.
— Tente não se mexer tanto, Adrian. Suas costelas vão agradecer — avisei, minha voz saindo mais suave do que o habitual.
Adrian soltou um riso seco que terminou em uma careta.
— Sinto como se um caminhão tivesse passado por cima de mim e depois dado ré para conferir o serviço. Eu ainda... eu não lembro de muita coisa, Massimo. Foi tudo rápido demais. O piloto gritou que estávamos perdendo altitude, as luzes começaram a piscar e depois... o impacto. O resto é um borrão de fumaça e frio.
— Você tem sorte de estar vivo — Matteo interveio, virando-se para nós. — O avião virou sucata. Como você saiu de lá? Você lembra de como chegou até este vilarejo?
Adrian franziu a testa, mergulhando em suas memórias fragmentadas. Um silêncio pairou no quarto por alguns segundos antes de ele responder.
— Foi um anjo que me salvou.
Matteo soltou uma gargalhada curta e descrente.
— Um anjo? Não me diga que o impacto na cabeça te transformou em um carola religioso agora, Adrian. Vai querer abrir uma igreja quando voltarmos para Milão?
Adrian não sorriu. Ele olhou para Matteo com uma seriedade que nos fez calar.
— Não é piada, Matteo. Eu não sei se existe um Deus, mas se ele existe, ele mandou um anjo em forma de mulher para me tirar daquele inferno. Eu lembro vagamente do rosto dela. Ela era... real. Eu sentia as mãos dela me segurando, a voz dela me dizendo para não apagar. Se não fosse por ela, eu teria queimado com o que sobrou da fuselagem.
Troquei um olhar rápido com Matteo. A intensidade na voz de Adrian era real, mas a lógica falava mais alto.
— Segundo o agente Damon, foi um casal de moradores locais que te encontrou — expliquei, tentando trazê-lo de volta à terra. — Eles te levaram para a casa deles, fizeram os primeiros socorros e depois te trouxeram para cá. Foram pessoas simples, Adrian. Nada de seres celestiais.
Adrian apenas balançou a cabeça devagar, como se guardasse uma verdade que nós não éramos capazes de entender.
— Damon acabou de me passar as informações sobre o homem que estava rondando o vilarejo — Enzo começou, a voz baixa e tensa. — Ele foi identificado. É um dos capangas de baixo escalão, mas com ligação direta a Alessandro Moretti.
O ódio subiu pela minha garganta como ácido.
— Se tínhamos qualquer dúvida de que Moretti estava por trás do atentado à vida de Adrian, agora não temos mais. Aquele desgraçado tentou derrubar um membro da Tríade.
— Massimo, precisamos sair daqui — Enzo disse, sendo pragmático. — Está ficando perigoso demais. Se esse homem está aqui, é porque Moretti suspeita que Adrian sobreviveu. É apenas uma questão de tempo até que eles confirmem nossa localização exata e mandem uma equipe de limpeza para terminar o serviço.
— Eu concordo — respondi, cruzando os braços. — Mas Adrian ainda está instável.
— Precisa ser o quanto antes, Don — Enzo insistiu. — Não estamos com homens suficientes aqui para segurar um cerco se Moretti mandar uma força de ataque pesada. Estamos expostos neste hospital de província.
— Entendido. Eu vou conversar com o médico agora para acelerar a remoção. Prepare a logística. Quero a UTI aérea pronta para decolar em três horas.
— Vou informar os nossos homens para ficarem de olho no intruso e continuarem seguindo-o sem levantar suspeitas — Enzo assentiu e se retirou.

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