POV: Chiara
O silêncio da noite finalmente havia se instalado sobre a mansão, contrastando com o caos absoluto que tinha dominado os corredores durante o dia inteiro. O quarto estava fracamente iluminado apenas pela luz suave dos abajures de cabeceira, criando uma atmosfera acolhedora e íntima, um verdadeiro refúgio contra o mundo exterior. Eu estava no banheiro, terminando de me preparar para dormir. Escovei os dentes olhando para o espelho, sentindo aquele frio na barriga clássico de quem sabe que a vida vai mudar radicalmente em poucas horas. Quando terminou, vesti uma camisola de cetim, com detalhes em renda delicada que desenhavam o meu busto e desciam suavemente pelas minhas curvas, fazendo-me sentir bonita e extremamente confortável na minha própria pele.
Ao empurrar a porta do banheiro e caminhar em direção ao quarto, a primeira imagem que tive foi a de Massimo. Ele estava deitado na nossa imensa cama de casal, com as costas escoradas em dois travesseiros grandes. O seu peito musculoso estava totalmente nu, e ele segurava o celular com uma das mãos, com o cenho levemente franzido enquanto digitava alguma mensagem, provavelmente resolvendo os últimos problemas com Enzo antes de desligar a mente por aquela noite.
Assim que os meus passos ecoaram pelo piso de madeira, Massimo ergueu os olhos. O foco dele mudou instantaneamente do aparelho para mim. Eu vi o momento exato em que o seu olhar desceu pelo meu corpo, analisando a camisola, e uma faísca de desejo misturada com aprovação brilhou nas suas pupilas. Sem dizer uma única palavra, ele guardou o celular na mesa de cabeceira, eliminando qualquer distração. Ele abriu os braços compridos, batendo levemente no próprio peito, e me convidou com um sorriso de canto a me aconchegar nele.
Não pensei duas vezes. Aproximei-me da cama, subi no colchão macio e engatinhei até o seu lado, deixando que o tecido de cetim escorregasse pelas minhas pernas. Deitei a cabeça no seu peito nu, sentindo o calor reconfortante da sua pele e o bater ritmado e firme do seu coração. Ao me acomodar, os meus olhos focaram na lateral do seu pescoço e nos ombros. Soltei uma risada baixa, meio travessa, ao ver as marcas nítidas das minhas unhas ali, arranhões vermelhos bem desenhados. Passei a ponta dos dedos de leve por cima de uma das marcas.
— Eu realmente deixei um mapa em você — sussurrei, olhando para ele de baixo, com um sorriso divertido. — Está ardendo?
Massimo soltou um riso rouco, aquele som grave que vibrava direto no meu ouvido por eu estar colada ao seu peito, e apertou o abraço ao redor da minha cintura, puxando-me ainda mais para si.
— Não está ardendo, principessa. E mesmo se estivesse, seria o tipo de dor que eu faço questão de carregar. É o lembrete de que você é completamente minha — ele respondeu, a voz carregada daquela possessiveness que, em vez de me assustar, me dava uma sensação estranha de segurança. Ele beijou o topo da minha cabeça. — Amanhã é o grande dia. Você está pronta para ser a minha esposa diante de toda a organização?
— Estou. Mas mentiria se dissesse que não estou com uma expectativa enorme e um pouco de frio no estômago — confessei, traçando círculos invisíveis na pele do peito dele. — Vai ser um evento gigante. Toda aquela gente do conselho olhando para nós... É uma pressão real.
— Ninguém vai ousar fazer nada, Chiara. A segurança é absoluta e você vai estar ao meu lado o tempo todo — ele garantiu com firmeza, o tom de voz mudando para o de um homem que controlava um império.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Massimo começou a passar a mão pelos meus cabelos escuros, fazendo um carinho lento, desembaraçando as mechas de forma tão delicada que nem parecia que aquelas mesmas mãos grandes eram capazes de quebrar um homem ao meio se fosse necessário. Aquela calmaria e a proximidade me deram coragem para tocar em um assunto que vinha rondando a minha mente desde a minha conversa com Giulia na piscina. Eu precisava entender o terreno onde estávamos pisando, mas precisava ser extremamente cautelosa para não trair a confiança da minha amiga.
— Massimo... posso te perguntar uma coisa? Uma dúvida que me surgiu hoje — comecei, mantendo a voz calma, quase despretensiosa.
— Claro. O que foi? — ele perguntou, sem parar o carinho nos meus cabelos.
— Como funciona a questão da sexualidade dentro do mundo da máfia? Dentro da Cosa Nostra? — joguei a pergunta no ar, medindo as palavras.
Massimo hesitou por uma fração de segundo, os seus dedos parando por um instante nos meus fios antes de retomar o ritmo lento. Ele soltou um suspiro pesado, pensando em como explicar aquela engrenagem para mim.
— É um assunto complexo, Chiara. Normalmente, a máfia é uma instituição extremamente tradicional e conservadora. Muito baseada nos velhos conceitos de família, herança e casamentos arranjados para alianças, e muitas vezes por contrato, assim como o nosso começou. Ainda existem muitas regras rígidas e preconceitos silenciosos enraizados na mente dos conselheiros mais velhos, os chamados dinossauros do conselho — ele explicou de forma direta e sem rodeios. — Mas, hoje em dia, as coisas estão muito mais mudadas. A nova geração, os homens que estão assumindo os negócios agora, entendem que o mundo evoluiu. O foco principal é a lealdade e os lucros. O que você faz entre quatro paredes importa menos do que a sua capacidade de manter a boca fechada e proteger a organização.
Massimo continuou me olhando por mais alguns segundos, os olhos ligeiramente estreitados com uma pitada de desconfiança inteligente. Ele soltou o meu queixo e deu um sorriso de canto.
— Mas me diga uma coisa... por que esse interesse repentino nesse assunto logo hoje, na véspera do nosso casamento? — ele questionou, arqueando uma sobrancelha escura.
— É apenas por curiosidade, Massimo — respondi rapidamente, dando o meu melhor sorriso inocente e acariciando o peito dele para dissipar qualquer suspeita. — Eu sou curiosa, lembra? A minha mente funciona tentando entender como os mundos funcionam. Eu só quero entender melhor todas as regras da máfia, os assuntos que são importantes para vocês e como as engrenagens dessa sociedade oculta se movem. Não há nada além disso.
Ele pareceu aceitar a desculpa, embora eu soubesse que Massimo raramente deixava algo passar em branco. Ele puxou o lençol fino de linho, cobrindo os nossos corpos até a altura do peito, e me apertou mais um pouco contra o seu lado esquerdo.
— Entendo. Mas por hoje, a sua mente curiosa precisa descansar — ele disse, o tom de voz tornando-se mais suave e reconfortante. O assunto do casamento voltou a ser o foco. — Nós precisamos dormir agora. Amanhã será um dia cheio, o dia mais longo e importante das nossas vidas. O salão vai estar lotado, a cerimônia exige foco e eu preciso que a minha noiva esteja perfeitamente descansada para brilhar como a rainha que é.
— Tudo bem. Você tem razão — concordei, fechando os olhos e deixando que o cansaço acumulado do dia finalmente começasse a pesar nas minhas pálpebras.
Ajustei a minha cabeça no vão do seu ombro, aspirando o perfume amadeirado da pele dele misturado com o cheiro do sabonete. Massimo manteve o braço firme ao meu redor, uma barreira física contra qualquer perigo do mundo externo. Com o coração aquecido pelos conselhos do meu pai e pela certeza de que eu estava ao lado de um homem que, apesar da brutalidade, possuía uma mente justa, eu me deixei adormecer, pronta para o amanhecer que mudaria o meu destino para sempre.

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