POV: Massimo
Assim que saímos das portas automáticas do hospital, o calor abafado do estacionamento nos atingiu. Enzo já estava a postos, encostado em um dos SUVs pretos, acompanhado por mais dois seguranças que mantinham os olhos em constante varredura pelo perímetro. Abri a porta traseira para que Chiara entrasse, mas ela parou, os olhos saltando de Enzo para os homens armados sob os ternos. A desconfiança estava estampada em seu rosto.
— Entra no carro, Chiara — ordenei, mantendo a voz baixa.
— Você é sempre assim? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha, sem se mover. — Me pareceu muito mais gentil ontem, na empresa.
Dei um meio sorriso, o tipo de sorriso que não costuma trazer boas notícias.
— A maioria das vezes, sim. Agora, vamos. Não gosto de esperar.
Ela soltou um suspiro pesado, mas entrou. Sentei-me ao lado dela e o motorista deu a partida imediatamente. Enzo e os outros dois seguiram no carro de trás, formando nosso comboio habitual. Peguei o celular e vi a confirmação de Bellina; o almoço estaria pronto assim que chegássemos.
— Para onde estamos indo? — Chiara quebrou o silêncio enquanto observava Milão passar depressa pela janela filmada. — Eu tenho que ir trabalhar. Se eu sumir assim, o Orion vai...
— Vamos almoçar primeiro — interrompi. — E não se preocupe com o Orion. Ele trabalha para mim, lembra?
O trajeto levou cerca de quarenta minutos devido ao trânsito pesado perto do centro. Quando paramos em frente ao edifício de fachada espelhada, desci e abri a porta para ela. Pegamos o elevador privativo, que subiu silenciosamente até o último andar. Assim que as portas se abriram diretamente dentro da cobertura, Chiara ficou estática. Seus olhos percorreram o mármore italiano, as obras de arte abstratas e a vista panorâmica da cidade que parecia se curvar sob nossos pés. O luxo ali era agressivo, feito para intimidar.
Coloquei a mão na base das costas dela, sentindo-a tensa sob meu toque, e a conduzi pela sala vasta. Bellina já nos aguardava com seu avental impecável e um sorriso acolhedor.
— Senhor Capone! — ela saudou, inclinando levemente a cabeça.
— Bellina, esta é a Chiara.
— Chiara, minha querida, é um prazer — disse a governanta, aproximando-se com gentileza.
— Igualmente, senhora — Chiara respondeu, parecendo um pouco deslocada.
— Chiara, Bellina é minha governanta. Ela é quem cuida desta cobertura e de tudo o que eu preciso, principalmente quando não estou por aqui.
— Você não mora aqui? — ela me perguntou, voltando o olhar para mim.
— Venho aqui às vezes, mas fico mais em outro local, mais reservado e seguro. Depois você vai conhecer.
— Entendi — ela murmurou, embora eu soubesse que sua mente estava processando mil informações por segundo.
— Senhor Capone, o almoço já está pronto. Vou servir agora mesmo — avisou Bellina.
— Você não precisa ir trabalhar hoje, Chiara. Nem hoje, nem amanhã.
— Eu vou trabalhar, sim. Eu nunca vou depender de homem nenhum, Massimo. Não fui criada assim. Eu aceitei que você pagasse o tratamento do meu pai porque eu não tinha escolha, era a vida dele em jogo... mas não aceitei que você mandasse em mim ou na minha rotina.
Sorri, recostando-me na cadeira e girando a taça de vinho entre os dedos. A chama dela era fascinante.
— Você é teimosa. É uma qualidade admirável, mas neste momento, é desnecessária. O mundo como você conhecia mudou, Chiara.
— O meu caráter não mudou — ela rebateu, levantando-se. — Se você quer que eu seja sua "esposa", vai ter que aceitar que eu tenho uma vida própria.
Eu a observei em silêncio por alguns segundos. A luta dela era inútil, mas eu permitiria que ela acreditasse que tinha algum controle, por enquanto.
— Enzo vai levá-la — eu disse, levantando-me também. — Mas não se esqueça, Chiara: cada passo que você dá, eu estou vendo. O tratamento do seu pai continua enquanto você for minha. E você é minha.
Ela me lançou um olhar fuzilante e saiu da sala de jantar sem dizer mais nada. Eu fiquei ali, saboreando o resto do vinho e o gosto da posse. Ela achava que ainda podia ser a secretária comum de Milão, mas logo perceberia que, uma vez que o Chefe da Tríade coloca os olhos em algo, não há volta para a normalidade.

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