POV: Massimo
O ar dentro do salão principal da mansão antiga era denso, impregnado com o cheiro de poeira, madeira velha e a tensão dos homens que aguardavam a minha palavra. Ali estavam reunidos os conselheiros mais antigos da organização, homens que tinham servido ao meu pai e que agora olhavam para mim, avaliando se o novo Don tinha o pulso firme necessário para manter o império de pé após o caos dos últimos meses. Matteo estava encostado perto de uma das janelas coloniais, com os braços cruzados e aquela sua postura falsamente descontraída que escondia um predador pronto para saltar. Adrian, posicionado com sua cadeira de rodas ao lado esquerdo da imensa mesa de centro, mantinha a expressão fria e analítica de sempre, os olhos fixos nos papéis e nos homens à sua frente.
Sentado em uma das poltronas principais estava Tomasso, o homem mais importante e influente do sul da Itália. Ele era o mesmo homem com quem meu pai, Vittorio, estava tentando fechar uma aliança de casamento entre mim e a filha dele antes de tudo virar de cabeça para baixo. Tomasso mantinha uma postura arrogante, achando que o seu status no sul o tornava intocável ou superior dentro daquela sala.
No centro do salão, repousando sobre a mesa de mogno maciço, estava uma caixa de madeira escura, lacrada. Ninguém ali dentro ainda sabia do destino de Moretti; o conselho acreditava que ele continuava foragido, articulando os seus próximos passos. No entanto, todos os olhares desviavam sutilmente na direção daquele objeto misterioso, tentando adivinhar o que havia ali dentro.
Tomasso pigarreou, quebrando o silêncio pesado, a voz arrastada pela idade e carregada de uma falsa soberba:
— Massimo... nós apreciamos a convocação desta reunião de emergência — ele começou, ajeitando as abotoaduras do terno caro. — No entanto, os homens estão inquietos. Os boatos sobre o que aconteceu em Pavia e Milão nas últimas quarenta e oito horas estão correndo pelas ruas. O conselho precisa de respostas claras sobre a caçada a Moretti. Precisamos saber se a nossa estrutura está segura e quais os próximos passos da Tríade.
Olhei para Tomasso fixamente, deixando o silêncio se estender por alguns segundos até que ele se mexesse na cadeira e desviasse o olhar, desconfortável. Eu sabia exatamente o que aquele velho desgraçado tinha feito. Antes de morrer na minha mão, Moretti havia confessado que Tomasso sabia perfeitamente do ataque planejado contra a Chiara — o mesmo ataque que acabou culminando na morte do meu pai.
Dei a volta na mesa com passos lentos e firmes, parando exatamente atrás da caixa de madeira.
— A estrutura da Tríade Negra nunca esteve tão segura, Tomasso. E a prova disso está bem aqui diante de vocês — respondi, a minha voz saindo baixa, mas ecoando com clareza pelo salão. Dei dois tapinhas leves no topo da caixa. — Na verdade, eu tenho um presente especial para o conselho hoje. Um símbolo que resume o encerramento de uma parte dos nossos problemas. Tomasso, faça os favores. Levante-se e abra a caixa para os seus companheiros do conselho.
Tomasso franziu o cenho, trocando um olhar rápido com os outros conselheiros, que assistiam à cena em completo silêncio, claramente desconfiado, mas a sua arrogância não o deixou hesitar. Ele se levantou devagar, ajustando o paletó, e caminhou até a mesa de centro. Suas mãos velhas e levemente trêmulas tocaram o fecho de metal da caixa. Adrian observava a cena com um brilho de pura diversão nos olhos frios, enquanto Matteo apenas descruzou os braços, preparando-se para o espetáculo.
Com um clique seco, Tomasso destravou o fecho e ergueu a tampa pesada. No milésimo de segundo em que seus olhos focaram o conteúdo, o choque foi tão violento que o sangue sumiu completamente do seu rosto. Tomasso soltou um suspiro sufocado de puro horror, deu um passo trôpego para trás e, no susto, deixou a caixa escorregar das suas mãos.
A caixa tombou de lado na mesa de centro e o seu conteúdo rolou para fora, caindo pesadamente no tapete persa. Era a cabeça degolada de Moretti, com os olhos vidrados e a expressão congelada no exato momento da sua morte violenta. Uma poça de sangue pisado começou a manchar o tecido luxuoso do tapete.
Vários conselheiros prenderam a respiração e se levantaram das suas cadeiras num sobressalto, os rostos transformados por uma mistura de pavor, repulsa e surpresa absoluta. Eles não faziam ideia de que Moretti já estava morto. Mas ninguém ficou mais perturbado do que Tomasso. Eu percebi imediatamente o choque e o desespero nos olhos esbugalhados do velho do sul; ele encarava os restos mortais do seu aliado com a boca levemente aberta, o corpo inteiro tremendo. Tomasso levou a mão ao peito, a respiração curta, olhando para os meus pés como se visse o próprio diabo.
— Isso que vocês estão vendo no chão — falei, elevando sutilmente o tom da minha voz, deixando a frieza do meu comando pairar sobre as cabeças de todos — É apenas uma lembrança viva e definitiva do que acontecerá com qualquer um que ousar tocar na família Capone, ou tentar conspirar contra os interesses da Tríade Negra. Moretti acreditou que o luto pela morte do meu pai nos tornaria fracos. Ele acreditou que poderia negociar pelas nossas costas. Esse foi o preço que ele pagou. E garanto a vocês que serei ainda menos complacente com o próximo que hesitar na sua lealdade.
Os homens se entreolharam, engolindo em seco. Ninguém ousou dizer uma única palavra em defesa do traidor. Eles voltaram a se sentar lentamente, mantendo os olhos bem longe da cabeça no chão.
— Ficou claro para todos o novo alinhamento da organização? — Adrian questionou da sua cadeira, a voz saindo cortante como uma lâmina.
— Perfeitamente claro, Adrian — um dos conselheiros respondeu rapidamente, limpando o suor da testa com um lenço. — A liderança de Massimo é incontestável.
— Vou perguntar mais uma vez, Tomasso... — sibilei, olhando bem no fundo das suas pupilas dilatadas. — Alguém tem alguma coisa para me contar?
Tomasso engoliu em seco, os olhos esbugalhados, completamente assustados e fixos no meu rosto. Ele tentou formular uma palavra, mas a voz não saiu.
Eu apertei o gatilho.
Click.
O som da agulha batendo em falso ecoou no salão. A arma estava sem bala na agulha. Tomasso fechou os olhos com força e se encolheu na poltrona, empalidecendo tanto que parecia que ia ter um ataque cardíaco ali mesmo.
Esperei que ele abrisse os olhos e, quando olhei para baixo, notei uma mancha escura se espalhando rapidamente pelo tecido cinza da calça dele, pingando no chão. O grande chefe do sul tinha se mijado de medo na frente de todo o conselho.
Dei uma risada alta, sombria e carregada de deboche, fazendo o salão inteiro estremecer com o som do meu desprezo.
— Olhem para isso... — falei, apontando a arma para a calça dele enquanto continuava a rir. Olhei de volta para o rosto humilhado de Tomasso e a minha expressão voltou a ficar mortalmente séria. — A próxima bala, Tomasso, não vai falhar. E ela será disparada exatamente no mesmo local da bala que acertou o meu pai, Vittorio. Bem no meio do seu peito.

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