Sentamos Aurora no grande sofá de couro. Ela parecia ter envelhecido dez anos em questão de minutos. Suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o copo de água que uma das funcionárias da casa trouxe com os olhos arregalados de medo. Sofia ajoelhou-se na frente da mãe, segurando suas mãos com força, tentando trazer um pingo de sanidade para aquele momento.
— Mãe... por favor, respira — Sofia pedia, a voz embargada, mas lutando para se manter firme pela mãe. — Precisamos pensar positivo. O papai é forte. Com certeza o Massimo já chamou o socorro para ele. O Massimo não vai deixar nada acontecer com o papai. A equipe médica particular da Tríade deve estar a caminho do salão agora mesmo. Eles têm os melhores equipamentos. Vai ficar tudo bem.
Eu assistia àquela cena com um nó gigante na garganta, sentindo o peso do mundo esmagar o meu peito. A culpa me corroía por dentro, queimando mais do que o próprio medo. Aproximei-me devagar e me sentei ao lado de Aurora, sentindo que precisava colocar aquilo para fora, por mais doloroso que fosse.
— Dona Aurora... me perdoe — murmurei, e as lágrimas que eu estava segurando finalmente rolaram pelo meu rosto. — Eu estou me sentindo tão culpada pelo que aconteceu com o senhor Vittorio... O atirador... ele estava mirando em mim. Se o seu marido não tivesse entrado na minha frente, ele não teria sido atingido. Foi por minha causa. Tudo isso é culpa minha.
Aurora, apesar de toda a dor e do estado de choque em que se encontrava, virou o rosto para me olhar. Seus olhos, sempre tão expressivos e acolhedores, estavam vermelhos e cheios de lágrimas, mas não havia um pingo de raiva ou ressentimento neles. Ela estendeu a mão trêmula e tocou o meu rosto, limpando uma das minhas lágrimas com o polegar.
— Não... não diga isso, Chiara — Aurora falou, a voz saindo fraca, mas convicta. — Não é para você se sentir culpada. Nem por um segundo. Vittorio... ele fez o que um homem de verdade deveria fazer. Ele protegeu a família. Ele protegeu a noiva do filho dele. Aqueles monstros lá fora são os únicos culpados por essa tragédia, minha querida. Nunca carregue esse peso com você.
Eu apenas balancei a cabeça, incapaz de formular uma resposta decente, mas as palavras dela trouxeram um pequeno conforto para a tempestade de culpa que me inundava.
O tempo começou a passar de forma torturante. Cada minuto parecia uma eternidade dentro daquela sala blindada. Sofia andava de um lado para o outro, os braços cruzados, enquanto eu não conseguia tirar os olhos da porta, esperando que ela se abrisse e Massimo passasse por ela. A falta de informação era uma tortura psicológica terrível.
— Meninas, eu sinto muito... mas eu ainda não tenho notícias detalhadas do salão — Enzo respondeu, mantendo o profissionalismo, embora a preocupação estivesse estampada em seu rosto. — O sinal na área do Palazzo está congestionado e as comunicações por rádio estão focadas na contenção dos atiradores. O Don Massimo deu ordens expressas para que eu cuidasse da segurança de vocês aqui dentro, e é isso que estou fazendo. Assim que o canal direto com o Don ou com o senhor Matteo for liberado, eu serei o primeiro a avisar. Até lá, peço que fiquem calmas e permaneçam longe das janelas.
Ele nos deu um aceno curto e ríspido antes de voltar para o hall de entrada para coordenar os homens do perímetro.
Voltei para perto do sofá, sentindo o desespero arranhar as paredes do meu estômago. Olhei para o colar de diamantes que ainda brilhava no meu reflexo no vidro da mesa de centro. Aquela joia, que antes parecia um símbolo de vitória e aceitação, agora parecia o início de uma era de sangue e dor. Eu só conseguia rezar, em silêncio, para que Massimo estivesse seguro e para que, de alguma forma, aquela noite de terror terminasse antes que destruísse o resto da família que eu estava começando a amar.

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