A senhoria saiu pelo vão. Vestia pijamas, estava com o cabelo desgrenhado e bocejava enquanto saía, aparentando ter sido arrancada do sono.
— No meio da noite, por que vocês estão fazendo tanto barulho?
Serena e Felipe se entreolharam, e ela tomou a palavra:
— Senhora, que história é essa de porta aqui?
A senhoria olhou para trás, para a pequena porta.
— Ah, essa porta. Esqueci de avisar, fui eu quem a fez.
Serena ergueu a sobrancelha.
— Você abriu uma porta no meu quintal, com acesso à sua casa?
— Como vocês ficaram muito tempo sem voltar, eu fiz a porta para facilitar na hora de vigiar a casa.
— E por que não consultou a gente?
— Eu já disse que era para facilitar, não tinha o que consultar.
— Senhora, esta casa é minha! Minha propriedade!
— Bom, não é bem assim que as coisas são, né?
— E como é, então? — Serena jamais deixaria de perceber as intenções da velha. Estava claro que a senhoria achava que elas tinham voltado para a cidade grande, que não retornariam mais e, por isso, queria quebrar o acordo e retomar a casa!
— Nós assinamos um contrato de locação de longo prazo!
— Os outros podem não saber, mas você sabe muito bem. Como os lotes rurais aqui na cidade não podem ser comprados ou vendidos por quem é de fora, nós assinamos o contrato de locação de longo prazo, mas também fizemos um acordo privado! Nele fica claro que a casa foi vendida para nós, e o valor que pagamos foi o preço de compra do terreno e da casa!
— De qualquer jeito, vocês já têm casa na cidade grande, para que fazer questão dessa tapera num fim de mundo desses? O máximo que eu faço é devolver uma parte do dinheiro para vocês.
Serena respirou fundo. Ela estava mesmo disposta a quebrar o acordo.
— Então foi você quem soltou os parafusos da cama, colocou os ratos no teto e a cobra na casa. A geladeira, a torneira e a fechadura também foi você quem estragou.
A visão de Serena chegou a escurecer de tanta fúria. Felipe a puxou para trás de si, assumindo a frente para lidar com a mulher.
— Não tem a menor possibilidade de você tomar essa casa de nós. É melhor sair do nosso quintal agora mesmo, senão... hmph!
— Senão o quê? Vai me bater?
A senhoria até falou de forma desafiadora, mas, diante da expressão fria e da aura intimidadora de Felipe, acabou se intimidando por dentro.
— Dou três dias para vocês arrumarem as malas e irem embora. Daqui a três dias, nós vamos nos mudar para cá, então é melhor não dificultarem as coisas!
Dito isso, temendo que Felipe partisse para a agressão, a senhoria recuou rapidamente para o seu lado.
E, com um estrondo metálico, trancou a porta.
Serena ainda custava a acreditar no que acabara de acontecer.
— Nós sempre nos demos tão bem... Eu nunca imaginei que ela fosse esse tipo de pessoa!

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