O pomo de adão de Félix moveu-se. As palavras subiram até a ponta de sua língua, mas ao encontrar os olhos claros e zombeteiros dela, foram forçadas a recuar.
A experiência de Waldir Palma anos atrás estava vívida em sua mente, mas ele não podia mencioná-la.
Celina captou toda a sua luta e silêncio naquele instante e soltou uma risada fria e cortante.
"Já que você não pode me dar certeza, que direito você tem de me acusar por ter me ‘protegido’ hoje? Entre dois males, escolhi o menor. Não foi uma escolha por necessidade?"
Dito isso, ela abriu a porta do carro com um gesto decidido e saiu.
Do outro lado, Geraldo também havia retornado do centro de convenções. Ele trocou algumas palavras com ela e, em seguida, ambos subiram na van da Pederneira Verde com os outros colegas.
Leon voltou para o banco do motorista e espiou discretamente pelo retrovisor.
Viu o rosto de Félix sombrio como a água, as veias saltadas no dorso da mão que repousava no joelho, os nós dos dedos levemente esbranquiçados pela força que fazia.
Em todos os anos que o acompanhava, raramente o vira tão irritado.
Leon se recompôs e falou com cautela: "Chefe, o pessoal da base está pedindo para o senhor ir para lá o mais rápido possível."
Félix massageou as têmporas e disse em voz baixa: "Vamos."
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem para Celina, avisando que não poderia voltar à noite. Celina não respondeu.
A conferência terminou pela manhã. À tarde, os telefones da Pederneira Verde não paravam de tocar.
A pequena empresa, até então quase desconhecida no setor, teve seu site e central telefônica inundados em poucas horas por chamadas internacionais de capitais e gigantes globais. Sua avaliação de mercado disparou como se tivesse sido injetada com combustível supercondutor.
Mas o coração de Celina permanecia tranquilo. Ela nem mesmo participou da festa de comemoração organizada por Geraldo.
Ela foi ao quarto de hospital de Jessica Pereira para se despedir.
Ela foi sozinha ao quarto de Jessica.

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