Iolanda Farias trancou a porta do quarto do hotel.
Pretendia descansar por uma noite.
Fechou os olhos.
Na escuridão.
As palavras cruéis de seu namorado, Narciso Rocha, ecoavam em seus ouvidos.
Três horas atrás.
Ela havia encerrado sua viagem de negócios no exterior mais cedo e voado de volta.
Não avisou Narciso Rocha.
Planejava fazer uma surpresa.
A sala de estar estava barulhenta.
Narciso Rocha havia convidado quatro ou cinco amigos íntimos para comer e beber em casa naquela noite.
Eles conversavam alto e se divertiam.
Ninguém ouviu o movimento na porta.
Ninguém sabia que ela havia voltado.
Da sala, a voz de Narciso Rocha chegou clara aos ouvidos dela, carregada de uma embriaguez difusa.
— A Iolanda Farias? Ah, ela é legal... mas é meio sem graça. Só pensa em trabalho. Sinceramente, como subordinada ela serve, mas como namorada... não tem muita graça.
Narciso Rocha tinha bebido demais.
O álcool soltou verdades impensadas.
Seu amigo, Henrique Ribeiro, riu ao ouvir aquilo:
— Tsc. Sem graça e você ainda namora com ela há nove anos?
O tom de Narciso Rocha era despretensioso:
— Primeiro, com ela ocupando a vaga de namorada, eu escapo dos encontros arranjados pela família. Segundo, ela é uma das sócias da empresa. Terceiro... bem, resolve as necessidades fisiológicas. Mas nove anos... qualquer um enjoaria, né?
Henrique Ribeiro retrucou:
— Mas ela dedicou os melhores anos da juventude dela a você. Se você não casar, como isso vai acabar?
Narciso Rocha zombou levemente, evitando a resposta direta.
— Vocês sabem, eu sou um solteirão convicto... Por que eu me casaria?
Iolanda Farias congelou.
Solteirão convicto?
Essas duas palavras foram como um raio que quase a partiu ao meio.
O namorado com quem ela estava há nove anos dizia, com descaso, que era um solteirão convicto?
Dos 18 aos 27 anos.
Ela apostou toda a sua juventude.
Apostou seu amor, sua carreira, sua vida...
O que significaram esses nove anos de dedicação?
Foi apenas má sorte?
Aquela era a piada mais engraçada que ela ouvira no ano inteiro.
Henrique Ribeiro insistiu:
— Então você vai continuar enrolando ela assim?
Narciso Rocha respondeu:
— Eu não estou enrolando. Vocês acreditam se eu disser que ela fica porque quer? Eu não consigo nem expulsá-la.
Henrique Ribeiro alertou:
— Se você nunca falar em casamento, uma hora ela vai embora.
Narciso Rocha riu, desdenhoso.
— Não vai. Ela não teria coragem de me deixar.
Juliano Cavalcanti, bêbado, provocou:
— Narciso, você não estaria ainda pensando naquela lá, né? O filho dela já deve estar correndo por aí.
A voz de Narciso Rocha congelou subitamente.
O beijo dele provavelmente estava guardado para aquele grande amor.
Ele sabia que não teria a chance de se casar com quem queria, então decidiu ficar solteiro para sempre...
Narciso Rocha tinha outra pessoa no coração.
E ela, o que era?
O que significavam todos esses anos de companheirismo?
Quanto mais Iolanda Farias pensava, mais gelado seu coração ficava.
Antigamente, ela compreendia o esforço dele em empreender.
Não queria pressioná-lo.
Por isso, nunca cobrou o casamento.
Apenas esperou pacientemente.
Ela sempre achou que, quando a carreira estabilizasse, quando a idade chegasse, ele se casaria com ela.
Eles formariam uma família.
Teriam um ou dois filhos.
Viveriam uma vida feliz.
Ela não imaginava que tudo isso era apenas um desejo unilateral.
Apenas uma fantasia dela.
No projeto de futuro dele, nunca houve um lugar reservado para ela.
Pior, havia outra pessoa.
Iolanda Farias não teve coragem de entrar e confrontá-lo.
Ela se virou.
Com os olhos vermelhos, partiu em silêncio.
Quando acordou novamente, foi naquele momento.
De ressaca em um bar, levada por um estranho para um hotel.

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