O quarto do hospital voltou a mergulhar no silêncio.
Mas o olhar de Benito continuou fixo na direção em que Glaucia havia desaparecido.
Benito conhecia muito bem a personalidade de Isaura. Ela era facilmente influenciável pelos outros e jamais conseguiria sustentar a família sozinha.
Durante todos aqueles anos, longe dos olhos dele, Glaucia certamente teve que sacrificar muito.
Ele se lembrava de quando foi embora. A sua Glaucia era pequena, uma garotinha carinhosa que vivia colada nele. Agora, ela havia se transformado numa mulher fria, inabalável e absurdamente profissional, despojando-se completamente dos traços da infância.
Quanto maior era a mudança dela, mais o coração de Benito se apertava.
Se ele tivesse sido um pouco mais cuidadoso e prudente naquela época, o final seria diferente?
Ele poderia ter crescido ao lado de Glaucia?
Mas, no fim, o "e se" não existe neste mundo.
Benito, por fim, apenas ficou com o olhar perdido, absorvido em seus próprios pensamentos.
Quando Alexandre entrou, deparou-se com a quietude do ambiente.
Ele olhou ao redor e sentou-se ao lado da cama de Benito: — E a Glaucia? Ela não ficou aqui com você?
Um leve traço de impotência surgiu no rosto de Benito: — Nós passamos muitos anos sem nos ver. Talvez ela já tenha esquecido como interagir comigo como pai.
Havia sentido isso durante o confronto direto com a filha; parecia que, entre eles, restava apenas um distanciamento formal e constrangedor.
— A vida não foi fácil para a Glaucia todos esses anos.
— Pouco depois de você desaparecer, a sua esposa adoeceu. A Glaucia carregou essa família inteira nas costas sozinha, ela...
— Ah, enfim, essa é a vida particular dela, não cabe a mim falar muito. Quando você tiver a chance, pergunte a ela com calma.
— Ela só não sabe se expressar, mas na verdade se importa muito com você. Desde que tivemos a sua pista, ela não descansou um único dia, acompanhou-nos em cada passo da busca.
— Ela... — Ao mencionar Glaucia, Alexandre inevitavelmente lembrou-se de Tadeu, mas ao ver o estado em que Benito se encontrava, guardou aquelas informações para si.
O olhar de Benito mantinha uma piedade constante. Ele disse: — Nesses anos todos, eu falhei com elas. E o cartel de drogas? Já foi desmantelado?
— Aquele Vinicius...
— Quanto a isso, você pode ficar tranquilo. A limpeza foi completa desta vez. A base deles foi totalmente destruída. Benito, você desperdiçou a maior parte da sua vida nessa missão. Não pense mais nisso. Está na hora de começar a pensar em si mesmo — afirmou Alexandre.
Ele fez o movimento instintivo de dar um tapinha no ombro de Benito.
Quando seus olhos focaram na atual condição do amigo, seu corpo congelou.
Assim que atendeu, Glaucia ouviu a voz trêmula do outro lado da linha: — Glaucia, filha... você já foi há tantos dias, ainda não encontrou o seu pai?
— Não disseram que ele estava com o Tadeu? A polícia não pode ir atrás do Tadeu? Como é que o seu pai está?
— Você sumiu e não me deu nenhuma notícia, estou morrendo de angústia.
Ela já havia visto Benito, mas não podia revelar a verdade a Isaura. Diante das perguntas da mãe, o coração de Glaucia se encheu de culpa.
Ela teve que forçar a própria compostura para mentir: — Ainda não o encontramos, mas deve faltar pouco. Mãe, não precisa se preocupar. Concentre-se em melhorar a sua saúde. Fique tranquila, assim que eu o encontrar, a primeira coisa que farei é levá-lo de volta para casa.
— Como você quer que eu fique tranquila? Glaucia, acho melhor eu ir até aí, eu...
— Não faria sentido a senhora vir até aqui agora. Se a senhora passar mal na viagem, o prejuízo vai ser muito maior.
— Seja obediente, fique no hospital e se recupere. Eu garanto que, em muito pouco tempo, trarei o papai de volta — retrucou Glaucia, com um tom de autoridade firme que não admitia réplicas.
Do outro lado da linha, Isaura continuou a insistir repetidamente, e Glaucia lidou com todas as objeções de forma fria e eficiente.
Ela havia instruído Clarinda, Alexandre e os demais sobre o pedido de Benito, justamente para garantir que Isaura não desconfiasse de nada.
Foram necessários trinta minutos inteiros. Glaucia quase ficou sem voz até que, finalmente, conseguiu convencer Isaura a desligar o telefone, mantendo sua muralha intacta até o último segundo.

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