Quanto mais otimista soava a voz dele, mais o coração de Clarinda pesava, como se uma pedra estivesse em seu peito. Do lado de fora da porta, Glaucia sentiu como se seu coração estivesse sendo esmagado. A dor era tão aguda que a impedia de respirar.
O pai parecia que sempre seria assim.
Ele sempre colocava os outros em primeiro lugar. Não importava o que sofresse, sempre mantinha aquela postura otimista, como se nenhuma dor ou trauma fosse capaz de derrubá-lo.
Mas a Glaucia de agora não era mais a garotinha de antes. Ela não via a atitude de Benito apenas como algo nobre ou grandioso; ela apenas sentia uma dor dilacerante por ele.
Sua mão esbarrou acidentalmente na porta. O movimento sutil foi o suficiente para empurrar a fresta que não estava totalmente fechada.
Glaucia permaneceu na entrada, com o olhar fixo na direção de Benito.
Benito também se virou para olhá-la naquele exato momento.
Pai e filha, separados por mais de uma década, viam nos olhos um do outro um distanciamento evidente.
Clarinda limpou as lágrimas e se levantou, tentando forçar uma postura profissional ao apresentá-los: — Mestre, esta é a Glaucia, a sua filha. Ela já é uma mulher adulta agora, mudou bastante, não é? O senhor quase não a reconheceu?
— Quando eu a vi da primeira vez, também hesitei um pouco.
— A Glaucia. Eu a reconheço — disse Benito. — Como eu não reconheceria a minha Glaucia?
— Glaucia, venha para perto do papai.
Aquela única frase foi o gatilho para que as lágrimas, que Glaucia tanto lutara para suprimir, rompessem a barreira novamente.
O corpo de Glaucia estremeceu violentamente, mas, dessa vez, seus passos foram extremamente firmes. Sem precisar do amparo de ninguém, caminhou a passos calculados em direção à cama de Benito, forçando sua persona corporativa a assumir o controle.
Notando o clima, Clarinda saiu silenciosamente do quarto junto com Ícaro, deixando o espaço reservado apenas para pai e filha.
A porta se fechou.
Glaucia parou em frente à cama.
Em meio ao silêncio sepulcral, foi Benito quem suspirou primeiro, dizendo com um tom carregado de culpa: — Glaucia, me perdoe. Durante todos esses anos, fui eu quem ficou devendo um pedido de desculpas a você e à sua mãe.
— Você teve uma vida muito difícil todo esse tempo, não teve? A culpa é toda minha, eu...
— De que adianta pedir desculpas? — interrompeu Glaucia, sua voz era fria e pragmática. — Pai, o que nós queremos nunca foi um pedido de desculpas. Em vez disso, prefiro que você se recupere logo, para que possamos ir ver a minha mãe. Ela esteve esperando por você durante todos esses anos.
Todo o mar de saudade havia se transformado, naquele momento, em um tom de voz áspero e direto.
— Glaucia, encare isso como uma súplica do seu pai. Ajude-me a esconder isso dela primeiro. Pelo menos me dê a chance de ser capaz de enxugar as lágrimas dela. Todos esses anos, eu...
— Eu ajudarei a manter o segredo. Minha mãe esteve doente nos últimos anos e, de fato, não suportaria o choque.
— Pai, depois de voltarmos desta vez, espero que o senhor deixe de lado esse seu heroísmo e se dedique apenas a fazer companhia à minha mãe. Estamos entendidos? — ordenou Glaucia.
Benito sorriu, autodepreciativo: — Acabou, Glaucia. O homem que eu sou agora é um inútil, não consigo fazer mais nada. Poder fazer companhia a vocês daqui para frente já será o suficiente para mim.
— Então está combinado. Antes de eu colocar as próteses, não dê notícias sobre mim à sua mãe.
Encarando o olhar suplicante dele, Glaucia não conseguiu proferir mais nenhuma recusa.
Como Benito havia dito, as próteses não enganariam Isaura para sempre. Mas, no mínimo, ele teria braços para ampará-la, para secar o rosto dela. Ao menos superficialmente, pareceria ter os quatro membros intactos, o que tornaria a aceitação um pouco mais fácil para a matriarca.
Glaucia encerrou o assunto de forma executiva: — Então o senhor vai descansar e se recuperar bem aqui durante esse período. Eu providenciarei a melhor equipe médica e o melhor suporte tecnológico disponíveis.
— Eu te dou muito trabalho, Glaucia — respondeu Benito.
Glaucia respondeu com um som áspero e mecânico. Ela estava prestes a perder o controle sobre as próprias emoções e, antes que a primeira lágrima caísse, saiu rapidamente do quarto do hospital.

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