— "Aquela Glaucia... Ela é só uma fachada. Eu nem sequer toquei nela. Eu me guardei exclusivamente para você.
— "Hortência, a única pessoa que importa para mim é você. Você é a única com quem eu quero me casar."
Essa gravação era o registro de uma das inúmeras vezes em que Tadeu a bajulou, muito antes do divórcio com Glaucia.
No passado, ouvir aquelas palavras despertava nela um senso perverso de superioridade, como se estivesse pisoteando a jovem, bela e bem-nascida Glaucia.
Ela havia guardado o áudio com zelo, ouvindo-o de tempos em tempos para massagear o próprio ego.
E agora, tornara-se a prova cabal de que Tadeu um dia a amara.
— É montagem! Isso foi gerado por inteligência artificial. Pensem bem, como eu diria algo assim para uma mulher velha como ela? — A fúria de Tadeu explodiu. O último traço de pena que ele sentia por Hortência havia evaporado, restando apenas o desespero de se desvincular dela a qualquer custo.
Ele havia lutado tanto para deixar o interior e se consolidar na Cidade G. Ele agora tinha prestígio, poder e uma identidade totalmente nova na alta roda.
Mas bastou Hortência aparecer para fazê-lo passar por uma vergonha pública.
Fez com que ele se sentisse de volta à Capital, quando a internet transbordava com escândalos sobre a sua vida.
As palavras "mulher velha" rasgaram implacavelmente o último véu de decência que ainda existia entre os dois.
Os jornalistas, antes inclinados a acreditar na gravação, agora hesitavam.
Afinal, por mais que Tadeu fosse cadeirante, ele era o atual patriarca do Grupo Rodrigues. Chegar a tal posição no mercado exigia uma habilidade ímpar.
Um homem com esse status certamente tinha inúmeras mulheres à disposição. Por que ele se envolveria com uma senhora tão mais velha que ele?
A conclusão pareceu óbvia para a imprensa: a mulher velha estava tentando dar o golpe no Sr. Pires, orquestrando todo aquele espetáculo patético.
O desprezo coletivo voltou-se para Hortência. Os jornalistas começaram a bombardeá-la com perguntas acusatórias: — Senhora, de onde tirou a ideia de usar a mídia para manchar a reputação do Sr. Pires?
— Senhora, por acaso sofre de algum delírio de perseguição romântica com o Sr. Pires? Foi assim que teve o trabalho de forjar esse áudio para criar essa encenação?
— Senhora, um conselho: da próxima vez que tentar dar o golpe do baú, tenha um pouco de noção da sua idade. Se quiser parasitar alguém, procure um idoso da sua faixa etária.
— Ahhh! Não! Eu não estou inventando nada! Tudo o que eu disse é a mais pura verdade! Ele é o meu marido! Vocês estão sendo manipulados por ele! — Hortência gritou, histérica, mas a imprensa já estava surda para as suas justificativas.
Glaucia falou, a voz fria e cortante como gelo: — Galdino. Não há mais ninguém aqui. Saia do carro. Temos negócios a tratar.
— Eu... Tudo o que eu sabia, já contei para o Carlão. Não tenho mais nada a discutir com a Srta. Glaucia — respondeu Galdino. O tom trêmulo o traía, e seus olhos varriam os arredores, evidenciando a profunda culpa.
Glaucia rebateu de imediato: — É mesmo? Então por que você fugiu de Tadeu e dirigiu como um louco até aqui? Qual é o seu destino, Galdino?
O olhar de Galdino oscilou em pânico mais uma vez. — Meus... meus assuntos pessoais não são da conta da Srta. Glaucia, certo?
— Eu sei que aquele policial era o pai da senhora. É natural que a Srta. Glaucia esteja ansiosa.
— Mas mesmo assim, não deve se deixar cegar. Aquela informação que o Vinicius passou era descaradamente falsa.
— Eu o servi por anos e posso garantir: nunca vi policial algum. Sugiro que a Srta. Glaucia pare de desperdiçar o seu tempo.
Ele havia escapado por pouco de ser implicado na confusão de Vinicius. Mas aquele "policial" era uma bomba-relógio. O que aconteceu jamais poderia ver a luz do dia.
Galdino respirou fundo de forma dissimulada, forçando a própria expressão a retornar à frieza.

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