Embora Tadeu nunca tivesse visto Carlão, as palavras de Ícaro foram suficientes para que ele deduzisse sua identidade. Naquele momento, ele já não tinha mais tempo para lamentações; o medo começava a se infiltrar em sua mente. Pelo canto do olho, ele lançava olhares furtivos para Carlão, os olhos transbordando de cálculos meticulosos.
Ele já havia entendido: Glaucia carregava uma escuta de Carlão. Em sua mente, ele repassava desesperadamente cada conversa que teve com ela, tentando lembrar se havia dito algo comprometedor e planejando friamente como remediar a situação.
Vinicius cometia atos desumanos e não demonstrava respeito por ninguém, mas sempre que o nome de Carlão surgia, havia um inegável traço de temor em sua voz. Se Vinicius descobrisse que ele fora o responsável por vazar as informações, com certeza não o perdoaria.
Mesmo que conseguisse escapar da fúria de Carlão, não escaparia de Vinicius. Ele precisava consertar as coisas.
Antes que Tadeu pudesse chegar a uma conclusão, Vinicius foi trazido ao local.
Ao observar a cena, a expressão de Vinicius congelou por uma fração de segundo. Seu olhar pousou brevemente em Tadeu antes de forçar um sorriso:
— Puxa, Ícaro, por que não me avisou que viria à Cidade G? Eu teria preparado uma recepção digna para dar as boas-vindas a você e à minha cunhada. E... Carlão, o que todos fazem reunidos aqui? Temos algum evento planejado para hoje?
Mesmo vendo Tadeu, seu subordinado, pálido e confinado a uma cadeira de rodas, isso não pareceu abalar o sorriso em seu rosto. Até mesmo Glaucia, em seu íntimo, teve que admitir que o controle emocional daquele homem era assustadoramente frio. Não era à toa que Alexandre e os outros passaram anos investigando sem nunca encontrar uma brecha.
Carlão quebrou o silêncio:
— Vinicius, já faz mais de dez anos que você trabalha para mim, não é?
— Sim, Carlão. Por que a pergunta repentina? — Vinicius manteve sua expressão de confusão. Ele se curvou levemente ao lado de Carlão, adotando uma postura submissa que em nada lembrava a de um executivo da elite de São Paulo.
— Mal-entendido? Então por que você não me explica as mortes naquela pequena vila de pescadores? Por que a polícia encontrou o pessoal da sua Farmacêuticos Rodrigues rondando por lá? — Carlão cortou direto ao ponto. Seus olhos, afiados como os de uma águia, fixaram-se impiedosamente no rosto de Vinicius. — Me diga, Vinicius, o que você está fazendo para causar tantas mortes? Que tipo de negócio a Farmacêuticos Rodrigues está conduzindo?
— Carlão, as operações da Farmacêuticos Rodrigues sempre foram absolutamente transparentes, nada escapa aos seus olhos. Se o senhor duvida, pode voltar comigo e inspecionar tudo pessoalmente. Quanto ao incidente na vila de pescadores, admito que fui descuidado. Contratei algumas pessoas para testes clínicos, assinamos contratos formais e paguei uma quantia generosa. Tenho todos os documentos para provar. A culpa é minha por não ter reportado ao senhor desde o início. Foi um erro meu. Mas pode ficar tranquilo, Carlão, meus negócios são limpos. Já enviei advogados com a documentação para a delegacia para liberar meus funcionários. Assim que eles saírem, o senhor verá que eu não fiz nada de errado.
— Testes clínicos não são desculpa para tratar a vida humana como lixo, Vinicius. Pelo que sei, as pessoas que você levou eram indivíduos perfeitamente saudáveis, física e mentalmente. Como você pôde ter uma ideia tão doentia? — pressionou Carlão.
Tadeu, que até então permanecera em silêncio, finalmente encontrou uma brecha e interveio subitamente:
— Carlão, a culpa não é totalmente do Sr. Vinicius. A ideia foi minha. Precisávamos de cobaias para os testes clínicos, mas as novas drogas eram instáveis e os riscos altíssimos. Ninguém queria colaborar. Então, agindo pelas costas do Sr. Vinicius, fui até aquelas vilas pobres e usei dinheiro como isca. Aquelas pessoas estavam desesperadas pela pobreza. Quando ouviram falar no dinheiro, e sabendo que o risco não era de cem por cento, assinaram os contratos voluntariamente. O Sr. Vinicius não sabia de nada disso. Fui eu quem perdeu a cabeça. Para impressionar o Sr. Vinicius, decidi pegar um atalho.

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