Ele realmente havia esquecido que Hortência adorava fazer coisas que ninguém mais pensaria em fazer.
Quem, apenas para comemorar o Ano Novo, deixaria a casa inteira vermelha, trocando até os tapetes por um tom escarlate?
Sem falar em Vitória; até mesmo Tadeu achou a visão agressiva aos olhos.
— Por quê? Eu passei a manhã inteira decorando, não ficou bonito? O Ano Novo não deveria ter uma atmosfera festiva? Por que eu tenho que tirar? — Hortência perguntou, usando seu habitual tom de vítima, como se todo o seu bom humor tivesse sido arruinado em um instante.
Tadeu não tinha a menor paciência para bajular Hortência. Ele respondeu com a sua habitual arrogância e impaciência:
— Não vamos comemorar. A partir de hoje, a nossa família não celebra mais o Ano Novo. Vá tirar essas coisas agora, não me faça repetir pela terceira vez.
Com os olhos marejados, Hortência continuou insistindo:
— Tadeu, como você pode falar assim? Sabe quanto tempo eu levei para arrumar tudo isso? Como pode ignorar completamente todo o meu esforço?
Se ela fosse um pouco mais observadora, teria notado as expressões sombrias de Tadeu e Vitória. Especialmente a de Vitória: com os olhos inchados de tanto chorar e os lábios brancos, ela parecia ter dificuldade até para respirar.
Mas Hortência não se importava com os outros. Ela só lembrava do "seu esforço".
Tadeu empurrou Hortência bruscamente e disse com a voz afiada:
— Meu pai morreu. A partir de agora, não teremos mais Ano Novo nesta casa. Esse motivo é suficiente para você? Recolha toda essa porcaria que você fez e não me deixe ver isso de novo.
Hortência ficou paralisada, olhando de Tadeu para Vitória:
— É sério? Tadeu, você não está mentindo para mim?
Vitória, que estivera em silêncio até então, explodiu ao ouvir essa frase. Ela estendeu a mão e agarrou o colarinho de Hortência:
— Quem brincaria com uma coisa dessas?! Por que você está vestindo vermelho?! Tire essa roupa agora mesmo!
Enquanto falava, ela tentava arrancar a roupa de Hortência, com uma força tão grande que a outra mal conseguia se soltar.
— Sogra, sogra, o que é isso?! Me solta! Essa roupa é nova, não rasgue! — Hortência não tinha nenhum afeto profundo por Napoleão. Ao ouvir a notícia de sua morte, a sua primeira preocupação foi a própria roupa.
Essas palavras foram como gasolina no fogo para Vitória. As duas rapidamente começaram a brigar. Na cadeira de rodas, Tadeu tentava intervir, mas não conseguia. No meio da confusão, alguém esbarrou nele, fazendo a cadeira tombar de lado. O estrondo alto fez com que as duas parassem de brigar e olhassem assustadas para ele.
O casaco de Hortência havia sido rasgado por Vitória, e o cabelo de Vitória estava todo bagunçado pelas unhas de Hortência. Mas, juntas, não pareciam tão patéticas quanto Tadeu, prensado sob a cadeira de rodas.
Ao mesmo tempo, ele sentia um leve peso na consciência.
Pelo que Vitória dizia, Napoleão parecia não ter contado a ela sobre as coisas que fez por ele.
Trocando em miúdos: Napoleão morreu por ele.
Aquele pai que sempre o desprezou, que sentia um desgosto profundo por ele, acabou morrendo em seu lugar.
Essa constatação fez com que o peito de Tadeu se apertasse dolorosamente. Ele disse, com a voz fria:
— Mãe, pare de chorar. A morte do meu pai não vai ficar assim. Eu vou vingá-lo. Vou fazer todos eles pagarem.
— Tadeu, não me assuste. Nós não temos como mexer com essa gente. Esqueça a vingança por enquanto, vamos apenas tentar recuperar o corpo do seu pai, por favor? — disse Vitória.
A vingança era algo em que ela nem ousava pensar. O seu único desejo era que Napoleão tivesse um enterro digno.
Pensando nisso, ela puxou a manga de Tadeu, implorando:
— Tadeu, vá pedir ajuda ao Vinicius. O Vinicius te valoriza tanto, peça para ele intervir e recuperar o corpo do seu pai, sim?

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