Assim como Glaucia havia deduzido, a tensão pairava na sala de Vinicius, dentro das instalações da Farmacêuticos Rodrigues. Além de Vinicius e Tadeu, estavam presentes alguns homens de jaleco que Glaucia jamais havia visto por lá. Eram os pesquisadores da linha de frente.
O clima era péssimo. O rosto de Vinicius parecia esculpido em granito.
Seus olhos predatórios fixaram-se em Tadeu:
— Você me garantiu que o seu plano era infalível. Por que a polícia farejou as nossas operações?
— Teoricamente, não havia margem para erros. Ninguém liga para o que acontece naquelas vilas esquecidas. Pescadores morrem no mar o tempo todo, faz parte da rotina deles. A polícia descobrir isso tão rápido é no mínimo suspeito — defendeu-se Tadeu, mantendo a voz controlada.
— É óbvio que é suspeito! E eu te pago para me dar soluções, Tadeu. Desde que você entrou na Farmacêuticos Rodrigues, eu te tratei como parte da elite. Você não vai me decepcionar agora, certo? — disse Vinicius, a ameaça clara sob o tom polido.
Os dedos de Tadeu cravavam-se nos apoios de braço da cadeira de rodas. As veias saltavam, rígidas. O reflexo das luzes em seus óculos escondia a escuridão cínica em seu olhar.
Um dos pesquisadores interveio:
— O que importa agora é a viabilidade do projeto. Estamos em uma fase crítica. Se interrompermos o fluxo agora, todo o investimento vai pro lixo.
O olhar gélido de Vinicius voltou a perfurar Tadeu:
— O Dr. Freitas fez uma pergunta, Tadeu. Você sabe o quanto de dinheiro e poder estão investidos aqui. A operação agora está nas suas mãos. Você não vai deixar minha pesquisa morrer na praia, vai?
A mensagem nas entrelinhas era clara: a fonte das vilas de pescadores secou, e era função de Tadeu abrir uma nova rota de cobaias.
O rosto de Tadeu estava péssimo. Ele sabia, desde o momento em que apertou a mão de Vinicius, que havia entrado no inferno. Mas não havia recuo.
Mesmo que tentasse pular fora agora, com a quantidade de podres que sabia da empresa, Vinicius mandaria executá-lo no dia seguinte.
Só lhe restava seguir chafurdando na lama.
— Quanto tempo as cobaias atuais aguentam? — perguntou Tadeu.
— Três dias, no máximo. No quarto dia, preciso de lote novo — respondeu o Dr. Freitas.
— Então aguardarei as suas boas notícias. É feriado, e sei que atrapalhei sua reunião de família com essas burocracias. Meu motorista te leva de volta agora mesmo.
A casa de luxo onde Tadeu morava também fora providenciada por Vinicius.
Lá, habitavam apenas ele e Hortência, acompanhados de uma diarista agendada. Devido à natureza obscura de suas atividades, Hortência — que agora interpretava a esposa submissa — era paranoica, recusando-se a contratar empregadas residentes.
O sigilo de Tadeu sempre foi impecável. Nem mesmo Vitória e Napoleão Pires sabiam no que o filho estava envolvido no momento. Contudo, ao cruzar a porta de casa, Tadeu deu de cara com os dois.
Vitória e Napoleão deviam ter chegado há pouco. Avaliavam os móveis caros e o design da casa com olhos maravilhados, enquanto Hortência servia chá, esbanjando um sorriso bajulador e cínico.
Eram seus pais. Fazia tempo que não os via. E, no entanto, ao olhar para eles, Tadeu sentiu apenas uma irritação sufocante.
Com uma impaciência arrogante, ele disparou:
— Pai, mãe. O que estão fazendo aqui?

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