A conversa de Glaucia e Clarinda com os subordinados de Carlos não fluiu bem.
Pessoas como eles, que viviam flertando com as margens da lei, eram excessivamente cautelosas. Mesmo em um evento formal da câmara de comércio, agiam com extrema reserva.
Ambas cumprimentaram a outra parte, teceram inúmeros elogios polidos, mas no final, não conseguiram sequer um contato.
Com o evento chegando ao fim, Glaucia e Clarinda saíram do salão de banquetes, um tanto frustradas.
Pelo visto, infiltrar-se no núcleo inimigo não seria tão simples assim.
Enquanto conversavam, prestes a entrar no carro, Glaucia sentiu um olhar ardente pesar sobre ela.
Ela virou o rosto e viu exatamente Tadeu, sentado em uma cadeira de rodas.
Sem hesitar por um milissegundo sequer, ela entrou no carro com Clarinda.
Durante o trajeto, a expressão de Clarinda permaneceu carregada de preocupação.
Como o paradeiro do pai de Clarinda estava em jogo, Glaucia também sentia a urgência da situação.
No entanto, sua fisionomia tornava-se cada vez mais gélida e calculista.
— Glaucia, você já tem alguma ideia em mente? — perguntou Clarinda.
— Já que não conseguimos nos aproximar deles, é melhor procurar alguém que já tenha conseguido. Tadeu já me viu hoje. Conhecendo-o bem, tenho certeza de que ele virá atrás de mim. Na pior das hipóteses, me encontro com ele e sondo o terreno. — respondeu Glaucia.
Ela não esperava que Tadeu soubesse de muita coisa, mas ele era, afinal, filho de Napoleão. Qualquer pista que ele pudesse arrancar do pai já seria mais do que ela e Clarinda tinham.
— Mas... ele é seu ex-marido, e a família Pires fez aquilo tudo... — Clarinda não pôde deixar de se preocupar, lembrando-se das retaliações anteriores daquela família.
— Não se preocupe, eu sei me proteger. Serão apenas algumas palavras, nada vai sair do controle. — garantiu Glaucia.
Ela conhecia Tadeu minimamente.
Ele era cheio de segundas intenções, mas, no fundo, era um covarde. Mesmo que quisesse fazer algo ruim, seria através de manipulações rasteiras; ele nunca agiria de forma direta ou violenta.
Sem contar que agora ele estava amputado das duas pernas, em uma cidade onde também não conhecia ninguém. Ele não representava uma ameaça física.
— Glaucia, eu sei que você está ansiosa para encontrar meu mestre, mas talvez possamos pensar em outra alternativa. — Clarinda tentou persuadi-la novamente.
— Eu só vejo isso como um atalho. Se Tadeu me contatar, podemos usá-lo. Se ele não ligar, deixamos para lá. — sentenciou Glaucia.
Os fatos provaram que o julgamento de Glaucia sobre Tadeu era impecável.
Naquela mesma noite, ela recebeu a ligação de um número desconhecido. Ao atender, a voz do outro lado era inconfundivelmente a de Tadeu.
— Glaucia! — Tadeu a chamou com ansiedade. — Glaucia, você não me desprezaria por não ter mais as minhas pernas, não é?
— Nós nos conhecemos há muito tempo, você ainda não sabe que tipo de pessoa eu sou? Eu não julgo os outros pela aparência, mas Tadeu, isso não significa que ainda possa existir algo entre nós. Eu te detesto e não suporto olhar para você, e isso não tem nada a ver com a perda das suas pernas, e sim porque você...
— Glaucia, vamos nos encontrar. — Tadeu a interrompeu antes que ela pudesse terminar, com uma urgência e até uma excitação evidentes na voz.
Ele sabia! Sabia que Glaucia não era superficial, que não o desprezaria por estar numa cadeira de rodas.
Muito diferente de Hortência...
Tadeu se lembrou dos últimos dias convivendo com a babá. Mesmo que Hortência não dissesse nada, sempre que ele pedia algo no hospital, a expressão dela carregava um traço indisfarçável de impaciência.
Aquela atitude impedia Tadeu de associá-la à imagem da mulher doce e atenciosa que ele guardava na memória.
Isso só o deixava ainda mais irritado.
A pouca pena que lhe restava por Hortência foi quase totalmente aniquilada pelos cuidados desastrados e impacientes dela.
Tudo o que ele havia enfrentado recentemente o fazia querer provar desesperadamente que não era um inútil.
E também o fazia lembrar, sem conseguir se controlar, da dedicação impecável que Glaucia costumava ter com ele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Eles Pareciam uma Família, E Eu Virei a Estranha