O escritório estava em silêncio. Os funcionários do Grupo Menezes já não andavam mais pelos corredores com a mesma desenvoltura de antes. As conversas eram mais baixas, os passos mais cuidadosos.
Quando o homem de terno discreto e pasta na mão, apareceu no saguão, a recepcionista sentiu um arrepio percorrer a espinha. Ela contactou imediatamente a secretaria do chefe, agradecendo aos céus por não ser ela quem lidava diretamente com ele.
- Senhor Rafael? - a secretaria disse no interfone, a voz hesitante. - Há um… oficial de justiça aqui. Para o senhor.
Do outro lado da linha, o silêncio foi breve.
Mas pesado.
- Manda subir.
A voz de Rafael saiu controlada. Muito controlada.
O oficial entrou no elevador com passos firmes, cumprimentou os seguranças no andar de cima com a formalidade de quem já estava acostumado a entregar más notícias. O corredor até a sala de Rafael parecia mais longo do que o normal.
A secretária bateu levemente na porta.
- Entra
Rafael estava de pé atrás da mesa, o rosto pálido, os olhos escuros demais. Os hematomas do confronto com Dante ainda tinha vestígios - o corte no supercílio continuava aberto.
O oficial não perdeu tempo com rodeios, estendeu o envelope lacrado.
- Rafael Menezes, está intimado a receber a notificação de ação de divórcio ajuizada por Lorena Campos.
As palavras ecoaram na sala como uma sentença.
Rafael não se moveu.
O oficial esperou um segundo, dois, três. Então colocou o envelope sobre a mesa, com o cuidado de quem deposita uma bomba prestes a explodir.
- O senhor tem o prazo de quinze dias para apresentar defesa.
Não houve resposta.
O oficial se retirou.
A porta se fechou.
E então…
o silêncio foi devastador.
Por um segundo, Rafael ficou imóvel. Apenas olhando para o envelope sobre a mesa, como se aquilo fosse um objeto estranho, uma língua que ele não reconhecia.
Depois, a mão se moveu.
Devagar.
Ele pegou o envelope. Abriu. Leu.
E o mundo desabou.
A primeira coisa que voou foi o copo de vidro. Estilhaçou contra a parede com um som seco, os cacos se espalhando pelo chão como gotas de água congelada.
Depois foi a cadeira. Ele a agarrou pelo braço e arremessou contra a estante de livros, que tombou com um estrondo que ecoou pelo corredor.
- Ela quer… - a voz saiu entre os dentes, rangendo - ELA QUER ME DEIXAR?!
O punho desceu sobre a mesa. Uma vez. Duas. Três. A mesa rangeu, rachou.
O laptop foi arremessado contra a parede. A tela se estilhaçou, pedaços de plástico e vidro espalhando-se pelo chão. Rafael não parou.
As pastas, os papéis, os objetos de valor que enfeitavam a mesa - tudo foi varrido num movimento cego, desesperado, a fúria tomando conta de cada músculo, cada pensamento.
Porque ele sabia.
Sabia que aquilo vinha.
Mas ver… ver era diferente.
Lorena estava se divorciando dele.
E não era só isso. Nos últimos dias, ele tentava manter a calma. Planejar. Estratégia. Guerra contra Dante, sim, mas com a cabeça fria, com os movimentos calculados. Ele repetia para si mesmo que era questão de tempo, que ela voltaria, que tudo se resolveria.
Mas a notificação estava ali.
No papel.
Prova de que ela não voltaria. Prova de que ela escolheu outro. Prova de que ele perdeu.
E então ele parou.
Ofegante.
Os olhos vidrados em algum ponto fixo, as mãos ainda fechadas, o peito subindo e descendo em ondas irregulares.
Nos últimos dias sempre que fechava os olhos aquele pesadelo voltava.



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