— Não me lembro. — Respondeu ele.
— É que o seu rosto me parece tão familiar, como se eu já o tivesse visto antes. — Disse o velhinho, batendo na própria cabeça sem conseguir se recordar.
Cícero não deu importância, presumindo que o homem o havia confundido com outra pessoa, e manteve o silêncio.
O senhor pensou por um longo tempo sem sucesso, murmurando para si mesmo em seguida.
— Pelo visto, vou ter que revirar os meus álbuns de fotos lá em casa, porque essa minha cabeça velha já não guarda mais nada.
Numa rara demonstração de curiosidade, Cícero questionou.
— O senhor tem fotografias daqui?
A simples menção do assunto fez os olhos do idoso brilharem de alegria.
— Mas é claro que sim! Vinte anos atrás, no casamento do meu filho, a minha nora me deu uma câmera fotográfica e eu peguei um gosto danado por tirar fotos. Quase todo mundo que pisou nesta comunidade ao longo dos anos está nos meus álbuns, então quem sabe você também não está lá no meio, já que eu revelei todas as poses. Eu tenho os registros de duas décadas inteiras!
— Entendo. — Disse Cícero, perdendo rapidamente o interesse na conversa.
Ele duvidava muito que fotos de vinte anos atrás pudessem conter algo que valesse a sua investigação.
O velho gari tagarelou mais algumas palavras antes de recolher os sacos de lixo e seguir o seu caminho.
Cícero continuou sentado de frente para o mar por uma eternidade.
Finalmente, dois dias se passaram.
A gripe e a inflamação nos pulmões ainda não haviam cedido, e foi em meio a essa letargia doentia que ele recebeu uma ligação de Adilson.
— O prazo que eu te dei acabou, então me diga se já tomou a sua decisão. Amanhã eu chamarei Eduarda para vir junto, portanto, traga os papéis do divórcio e volte para a Praia Dourada. — Exigiu Adilson.
Cícero respondeu com um simples e seco.
— Tudo bem.
No dia seguinte, ele seria obrigado a encarar Eduarda e os malditos documentos.
Era a primeira vez em sua vida que ele preferia fugir de um problema.
Tudo isso porque ele percebeu, da pior forma, que não possuía um único motivo válido para fazer Eduarda ficar.
A constatação dessa realidade era absolutamente patética.
Na imponente Praia Dourada, propriedade da família Machado.
Após receber a ligação de Adilson na noite anterior, Eduarda acordou cedo e levou um presente cuidadosamente escolhido para o patriarca.
Adilson estava tomando o seu café da manhã e, ao vê-la chegar, ordenou que os empregados trouxessem mais talheres à mesa.
— Prove um pouco dessa moqueca de peixe fresco que o chef acabou de preparar, pois eu achei o sabor excelente.
Adilson a incentivou a experimentar o caldo encorpado.
A aparência do prato era apetitosa, mas o leve cheiro de maresia exalado pelo peixe embrulhou o estômago de Eduarda instantaneamente.
Ela cobriu a boca com as mãos e empurrou a tigela para longe por puro reflexo.
Ouvir a convicção com que ela o descartava da sua vida trouxe um turbilhão de emoções amargas ao coração do homem.
Adilson ergueu o olhar, notou a presença do neto e fez um gesto para que ele se sentasse ao lado de Eduarda.
— Por que se atrasou tanto? Aconteceu alguma coisa? — Questionou Adilson.
— Peguei um engarrafamento no caminho. — Respondeu ele.
Cícero aproximou-se e sentou, sentindo uma pontada de dor ao notar o cenho franzido e o desconforto de Eduarda.
— O que foi, você ainda está se sentindo mal?
Ver ela daquele jeito doía nele.
Cícero levantou a mão para tocar a testa dela e verificar a febre, mas Eduarda esquivou-se bruscamente.
A mão dele ficou paralisada no ar, mergulhada num constrangimento palpável.
Ela recuava como se a simples ideia de ser tocada por ele fosse uma tortura insuportável.
— O meu estado de saúde não é mais da sua conta. — Declarou Eduarda com uma voz gélida e cortante.
Ela nunca mais direcionaria um sorriso acolhedor àquele homem.
Toda a doçura do passado havia sido reduzida a cinzas.
Ao presenciar a rejeição escancarada, Cícero deixou escapar uma risada seca e miserável.

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