— Senhora, finalmente despertou!
Dona Leite sentou-se vagarosamente no leito, massageando as têmporas que latejavam de dor: — O que aconteceu? Por que estou no hospital?
Tudo de que se lembrava era do retorno de Lucas a casa, de uma discussão áspera com ele no escritório e de, subitamente, sua visão escurecer.
— A senhora desmaiou no escritório e o Sr. Lucas a trouxe para o hospital... A propósito, há mais uma coisa: o Sr. César foi encontrado...
Ao notar o semblante sombrio do mordomo, um mau pressentimento tomou conta do coração de Dona Leite de imediato: — Como ele está? Ele sofreu algum ferimento?
O mordomo soltou um longo suspiro: — O quarto do Sr. César fica no andar de cima. Deixe-me ajudá-la a chegar até lá.
— O que realmente aconteceu?! Fale com clareza!
Sob o olhar fuzilante e coercitivo de Dona Leite, o mordomo enfim encontrou as palavras: — O Sr. César está vivo, porém suas pernas foram esmigalhadas. Os médicos informaram que... ele nunca mais poderá andar. Estará confinado a uma cadeira de rodas pelo resto da vida.
— O quê?!
O corpo de Dona Leite vacilou, de um instante para o outro, ela pareceu envelhecer mais de uma década.
O mordomo apressou-se em ampará-la: — Senhora, os médicos alertaram que não deve sofrer emoções fortes, pois correrá o risco de desmaiar novamente...
Dona Leite afastou a mão dele: — Eu estou bem.
Com uma palidez mórbida no rosto, levou um bom tempo até que se recuperasse do choque e sua expressão se tornasse completamente gélida.
— Isso tem alguma ligação com Inês?
O mordomo balançou a cabeça: — Não há nenhuma ligação com a Srta. Inês. Quem sequestrou o Sr. César foi Severino.
— Severino?
Dona Leite sentiu que aquele nome lhe era familiar, embora sua memória falhasse em resgatá-lo com exatidão.
— Ele é o homem que se casou com Regina. Naquela época, ele administrava uma pequena empresa. Por causa da obsessão do Sr. César por Regina, que ele não conseguia esquecer, armou-se um esquema para levar a empresa de Severino à falência. Além disso, contratou capangas para quebrar a perna dele, obrigando-o a divorciar-se de Regina... Com tamanho ódio acumulado, ele procurava, o tempo todo, uma chance para se vingar...
Ao adentrar o quarto de César, o quadro diante de seus olhos a comoveu profundamente: o filho jazia deitado, coberto por incontáveis bandagens, e os aparelhos de ventilação artificial eram o único meio que denunciava a tênue arfada de seu peito. Os olhos de Dona Leite se encheram de lágrimas imediatamente.
Apesar de ter nutrido uma persistente crença de que César era inferior a Lucas e de sua evidente predileção por este último, ele ainda era seu filho consanguíneo. Vê-lo em estado tão deplorável retalhava-lhe a alma sem qualquer clemência.
— Senhora, o Sr. César encontra-se fora de perigo. O parecer médico é que ele deverá retomar a consciência até amanhã de manhã, no máximo.
Dona Leite assentiu suavemente: — Certo. Entre em contato com especialistas estrangeiros, assim que ele apresentar alguma melhora, transfira-o sem demora para fora do país. Suas pernas têm de ser curadas a todo custo!
No íntimo, o mordomo libertou um suspiro silente, evitando admoestá-la, afinal, assimilar uma verdade amarga exigia seu tempo.
Concordando com a cabeça, ele redarguiu: — Entendido.
Contemplando César da porta do leito por mais alguns instantes, Dona Leite, sempre apoiada ao braço fiel do mordomo, preparou-se para partir.
Mal girara sobre os calcanhares, deu de cara com Regina, que vinha em passo frenético em direção ao quarto, com as madeixas despenteadas ao vento.

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