O treino seguiu por mais de uma hora.
Algumas perguntas eram jurídicas.
Outras, cruéis.
“Se o pai demonstra agora desejo real de convivência, por que impedir?”
“A senhora não acha que privar os menores da origem paterna pode causar dano?”
“Se ele não sabia, por que puni-lo por uma ausência involuntária?”
Cada pergunta parecia cuidadosamente desenhada para empurrá-la ao ponto de explosão.
Depois da décima ou décima segunda, Ema largou o copo de água sobre a mesa com mais força do que pretendia.
— Parece que tudo é formulado para me transformar na parte irrazoável.
Givaldo não a contradisse.
— Porque essa vai ser a tentativa.
Ela passou a mão pelos cabelos e recostou-se no sofá.
— É revoltante.
— É.
— E você fala isso com uma tranquilidade insuportável.
Ele a olhou por alguns segundos.
— Você quer que eu fale como?
Ema abriu a boca para responder, mas não encontrou nada.
No fundo, a calma dele era parte do que tornava aquele treino possível.
Mesmo irritante.
Mesmo seca.
Mesmo cirúrgica.
— Esquece — murmurou, por fim.
Givaldo folheou mais uma página e mudou de abordagem:
— Agora responde de outra forma. Menos técnica. Mais humana, mas sem perder o controle.
Ema respirou fundo.
Ele refez a pergunta:
— Por que a senhora não entrou em contato com o pai biológico ao longo desses anos?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu, devagar:
— Porque eu não tinha confiança de que meus filhos estariam seguros. E porque, naquele momento, meu dever principal não era preservar o direito de um homem adulto de saber algo. Era preservar três crianças pequenas de um ambiente que eu considerava ameaçador.
Givaldo a observou em silêncio.
Então assentiu.
— Essa ficou muito boa.
— Acho que você fez o que conseguiu com o que tinha naquele momento. O resto é tortura retroativa.
A frase a atravessou com precisão dolorosa.
Porque era exatamente esse o mecanismo que a perseguia em noites ruins: e se eu tivesse feito isso, e se eu tivesse dito aquilo, e se eu tivesse ficado, e se eu tivesse ido antes, e se...
Tortura retroativa.
Talvez aquele fosse o nome mais exato possível.
— Você anda perigoso demais para alguém que fala pouco — disse ela, depois de alguns segundos.
Pela primeira vez em dias, Givaldo esboçou um sorriso real, pequeno e cansado.
— Estou tentando acompanhar o nível do caos.
Ele subiu logo depois, deixando Ema sozinha na sala.
Ela permaneceu sentada por mais algum tempo, olhando os papéis espalhados e a água já morna no copo.
A audiência se aproximava.
E, pela primeira vez, não sentia apenas medo.
Sentia também uma espécie de preparação.
Dura.
Imperfecta.
Mas real.

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