Na manhã seguinte, Helena chamou Ema e Givaldo para uma nova reunião.
Assim que entraram, perceberam que havia mais tensão no ambiente do que de costume.
A advogada foi direta:
— O juiz designou uma audiência preliminar de conciliação e escuta técnica para a próxima semana.
O coração de Ema apertou de imediato.
— Tão rápido?
Helena assentiu.
— Sim. Isso acontece muito quando há pedido de tutela envolvendo menores. O juízo quer ouvir as partes logo no início e, se possível, avaliar espaço para uma composição mínima.
Givaldo fechou a cara.
— Composição mínima com alguém que passou quatro anos ausente e apareceu agora pressionando a mãe?
Helena ergueu a mão, pedindo calma.
— Eu sei. E isso será exposto. Mas precisamos entrar naquela audiência com duas coisas muito claras: firmeza e controle. Ele provavelmente vai tentar se apresentar como um homem contido, arrependido e injustamente afastado.
Ema soltou uma risada sem humor.
— Claro. O papel de vítima responsável combina bem com ele.
Helena não sorriu.
— Exatamente por isso você não pode cair em provocação emocional.
A advogada então abriu uma nova pasta e entregou algumas folhas.
— Aqui estão os principais pontos que você precisa ter em mente quando falar: foco nas crianças, foco na estabilidade, foco na construção de vínculo de forma segura e gradual — se é que o juízo for por esse caminho —, nunca em ressentimento pessoal.
Ema passou os olhos pelo material.
— “Se é que o juízo for por esse caminho.”
Helena assentiu.
— Sim. Porque também vamos sustentar que, antes de qualquer convivência, é preciso avaliação profunda do histórico, da conduta e do impacto psicológico de qualquer aproximação brusca.
Givaldo se recostou na cadeira.
— E se o juiz quiser pressionar por um acordo simbólico?
— Nós não fechamos nada em sala sem segurança técnica. — respondeu Helena. — Esse é o combinado.
Ema respirou fundo.
A audiência era esperada.
Ainda assim, a materialização da data fez tudo ficar mais concreto.
Mais perto.
Mais real.
...
Na saída, Givaldo caminhava ao lado dela sem falar.
Só quando chegaram ao estacionamento comentou:
— Eu conheço esse tipo de audiência. Se ele aparecer com a postura certa, muita gente vai se deixar impressionar.
Ema parou antes de entrar no carro.
— Você acha que eu também vou?
Givaldo a encarou.
...
Naquela noite, depois que as crianças dormiram, os dois se sentaram na sala com papéis, água e um bloco de anotações.
Givaldo assumiu um tom neutro e começou:
— Sra. Ema, por que o pai biológico passou quatro anos sem qualquer participação na vida dos menores?
Ela respondeu sem hesitar:
— Porque não houve procura legítima e segura, apenas contexto de violência, perseguição e desequilíbrio.
Givaldo assentiu.
— Por que a senhora não o procurou para informar a existência das crianças?
Ema travou por um segundo.
A pergunta doía em um ponto delicado, porque, embora soubesse exatamente por que não o fizera, também sabia como isso soaria de fora.
Respirou fundo e respondeu:
— Porque, no contexto em que eu vivia, a minha prioridade era garantir a sobrevivência e a proteção dos meus filhos. Não havia segurança nenhuma para um contato.
Givaldo anotou algo.
— Melhor. Mas tira a palavra “sobrevivência” se estiver nervosa. Pode soar dramático se a entonação sair errada.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Eu odeio isso.
— Eu sei.
E continuaram.

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