Naquela mesma noite, Ema levou as crianças para jantar mais cedo e tentou manter a rotina o mais normal possível.
Os três falavam sem parar sobre desenhos, frutas, coleguinhas e sobre qual filme queriam ver no fim de semana.
Ela sorria, respondia, fazia perguntas.
Por fora, tudo parecia sob controle.
Por dentro, a mente rodava sem pausa.
Depois de colocar os pequenos para dormir, foi até a varanda com o celular na mão e ligou para Samuel.
Ele atendeu depois de alguns toques.
A voz ainda carregava o cansaço pesado do luto, mas estava mais estável do que nos dias anteriores.
— Ema.
— Está tudo bem por aí?
Samuel soltou um suspiro.
— Dentro do possível.
Ela ficou alguns segundos em silêncio antes de perguntar:
— E o seu pai?
— Tem dias melhores e dias piores. Hoje ficou mais quieto.
Ema assentiu, mesmo sabendo que ele não podia vê-la.
Depois reuniu coragem e foi ao ponto:
— Samuel... eu preciso te perguntar uma coisa.
— Pode falar.
— O Alípio foi até aí só para prestar condolências mesmo? Ou tentou descobrir alguma coisa?
Do outro lado, houve um pequeno silêncio.
Então Samuel respondeu:
— Ele não perguntou nada na frente de ninguém. Mas isso não significa muita coisa.
O coração de Ema apertou.
— Você acha que ele suspeita?
Samuel não respondeu de imediato.
Quando falou, a voz saiu mais baixa:
— Acho que sim.
Ema fechou os olhos.
Mesmo já esperando essa possibilidade, ouvir aquilo em voz alta teve outro peso.
— Entendi.
Samuel então perguntou:
— Ele já te procurou, não foi?
Ema hesitou pouco.
— Sim.
— Ele te machucou?
A preocupação na voz dele veio rápida, quase cortante.
Ema se apoiou mais forte na grade da varanda.
— Não desse jeito.
Samuel entendeu o que havia nas entrelinhas.
O sangue de Ema gelou.
Abriu o arquivo imediatamente.
Era exatamente o que parecia.
Um documento elaborado de forma fria, técnica, elegante — como se a vida dos filhos dela já estivesse sendo organizada em cláusulas.
Direito de convivência paterna.
Cronograma de visitas.
Possibilidade de alternância de férias.
Obrigação de sigilo das partes.
Ema foi sentindo cada linha como se alguém apertasse lentamente seu pescoço.
Não era processo ainda.
Mas era um recado claríssimo.
Ele estava se preparando.
E, pior: já agia como se tivesse direito adquirido sobre tudo.
Com a respiração curta, ela fechou o arquivo, encaminhou o e-mail imediatamente para Givaldo e para o advogado do estúdio, e digitou apenas:
“Começou.”
Depois largou o celular sobre a mesa da varanda e ficou imóvel.
O medo ainda existia.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, ele vinha acompanhado de outra coisa.
Raiva.
Uma raiva limpa, lúcida, que não a empurrava para a fuga — e sim para a luta.

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