Ponto de vista de Ella.
No momento em que vi meu corpo deitado ali naquele caixão, pálido, sem vida e não totalmente certo — eles nunca conseguiam acertar as feições de ninguém na funerária, dando a todos uma aparência bem estranha na morte —, eu surtei.
Os guardas que antes me mantinham trancada no meu quarto sob as ordens de Alexander me encontraram de joelhos bem ali, no meio da sala de estar, horrorizada além de qualquer limite e à beira de vomitar o pouco que eu tinha comido hoje.
Eles não ouviram quando disse que precisava falar com Alexander. Apenas me agarraram com força por ambos os braços, como se eu fosse uma renegada na minha própria casa, e tentaram me arrastar para fora enquanto as pessoas que participavam do meu velório apenas assistiam em choque.
Quando Alexander chegou alguns minutos depois, segurando nosso filho — nosso filho, lindo, pequenininho e tão precioso — nos braços, esperei que ele me reconhecesse.
E por um momento, quase pareceu que ele reconheceu. Os olhos dele se arregalaram quando me virei para revelar meu rosto, e ele ficou muito, muito imóvel.
Tentei enviar uma vibração pelo nosso vínculo de companheiros, tentei provar a ele que ainda era eu; a Ella, sua companheira, esposa e mãe da criança que ele segurava naquele momento. Mesmo que ele ainda achasse que eu era uma espiã, tinha que acreditar em mim.
Mas o vínculo parecia abafado e desgastado. Como se o fio invisível que unia nossas almas tivesse, de alguma forma, sido desbastado, deixando um fio ainda mais fino do que antes. De algum modo, temi que, se puxasse com muita força, ele pudesse se romper completamente. Para sempre.
Se ele sentiu aquele puxão hesitante, não demonstrou. Apenas olhou para mim com frieza e mandou seus guardas me levarem embora como se eu não passasse de um incômodo a ser resolvido.
— Não vou tolerar ninguém fazendo cena no dia do funeral da minha esposa. — Disse ele.
Os guardas me agarraram pelos braços novamente e tentaram me arrastar.
— Espere! — Gritei desesperadamente.
— Mas eu sou—
Antes que eu pudesse terminar de dizer meu nome, Lilith de repente pisou no cômodo. O rosto dela estava tão frio quanto o de Alexander quando disse:
— Deixe que eu a acompanhe até a saída, senhor.
Os guardas congelaram, e Lilith fez um gesto para mim:
— Siga-me.
Parei de me rebater, esperança e medo guerreando dentro de mim em partes iguais quando vi o rosto dela. Lilith. Minha querida e doce Lilith; ela tinha que me reconhecer, certo? Mas por que olhava para mim como se eu fosse uma estranha?
Não, mais do que uma estranha. Uma inconveniência.
Ainda assim, mantive a esperança de que ela acreditaria em mim assim que eu contasse a verdade — Lilith sempre acreditava em mim, mesmo quando ninguém mais acreditava — e me forcei a acalmar. Os guardas olharam para Alexander, que hesitou, apertando o abraço ao redor do nosso filho.
Nosso filho. Ah, como eu queria segurar meu bebê nos braços. Ele estava vivo e bem, pelo que parecia, embora estivesse tão pequeno devido ao parto prematuro. Ele precisava da mãe.
Alexander se virou para Lilith e sussurrou algo para ela que não consegui ouvir direito. Eles trocaram algumas palavras e, finalmente, ele assentiu e deu um passo para trás. Os guardas me entregaram a Lilith, que segurou meu pulso com firmeza e me puxou para fora do cômodo com mais força do que eu esperava.
Praticamente tive que correr para acompanhar seus passos, completamente surpresa com o quão ríspida ela estava sendo. Lilith — a minha Lilith — não poderia acreditar de verdade que eu estava morta, poderia?
Meu coração afundou quando a ficha caiu. Se nem Lilith acreditasse em mim quando eu dissesse quem realmente era, o que eu faria? Meu filho ainda estava naquela casa, potencialmente nos braços de um homem que pretendia que nós dois morrêssemos. Eu não podia simplesmente ir embora, mas também não conseguia me aproximar dele. E agora, parecia que eu não tinha aliados.
Mas então, quando saímos, Lilith me puxou para o lado da casa e nos levou até um dos jardins menores, cercado por sebes altas.

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