O interior do quarto estava imerso em uma paz serena, e a luz do sol brilhava com um esplendor especial naquele dia.
A exaustão da noite anterior fizera com que ambos dormissem profundamente, até que o som de batidas na porta quebrou o silêncio.
Foram várias batidas consecutivas.
Clarice se mexeu, franzindo a testa em sinal de desagrado.
Quem estaria batendo na porta tão cedo? Ao tentar mover o corpo, sentiu uma dor aguda.
Abriu os olhos lentamente, deparando-se de imediato com um par de pupilas profundas e escuras.
— O que foi? — perguntou Erasmo, com um sorriso de canto e uma voz magnética e agradável.
— A mansão principal ligou, pedindo que o senhor volte lá esta noite. — respondeu Diogo, do outro lado da porta.
— Está bem, já entendi. — assentiu Erasmo.
Ele respondia para fora, mas seus olhos permaneciam fixos em Clarice.
A mente ainda letárgica de Clarice começou a processar tudo em um instante.
— Bom dia, minha Clarice. — disse ele, com um sorriso malicioso.
Aquele "minha Clarice" soava como uma perigosa tentação.
Ela deslizou apressadamente para debaixo das cobertas, mas, devido à brusquidão do movimento, acabou esbarrando em algo que não devia.
Erasmo soltou um gemido abafado, e ela logo colocou a cabeça para fora novamente.
Meu Deus, a pele dele estava tão lisa!
E, além disso, o que ela tinha acabado de fazer?
— Clarice, por acaso não me esforcei o suficiente ontem à noite? — provocou Erasmo.
O rosto dela corou intensamente. Era uma frase tão explícita, dita de forma tão direta.
— Erasmo, por favor, não fale assim, está bem? Vamos fingir que nada aconteceu ontem à noite. Houve um motivo para tudo, foi uma exceção. — respondeu Clarice.
Ela tentou se levantar logo após falar. A noite anterior fora uma situação atípica; agora que o dia havia amanhecido, tudo precisava voltar ao normal.
O zumbido repentino do celular de Clarice cortou a frase que Erasmo estava prestes a concluir.
Nervosa e agitada, ela apressou-se em procurar o aparelho.
— Alô! — atendeu ela, sem nem mesmo olhar quem estava ligando.
— Clarice, é a vovó. Venha com o Erasmo para a mansão principal hoje à noite, estou com saudades de você, querida! — soou a voz do outro lado.
— Vovó, eu tenho um compromisso hoje à noite, talvez não seja o melhor momento. Que tal eu ir visitá-la outro dia? — respondeu Clarice.
Kátia era a mulher que a avó havia escolhido para ele, e, num piscar de olhos, ela havia dormido com Erasmo.
Embora tivesse feito isso apenas para ajudá-lo como um antídoto, ainda sentia o peso da culpa.
— É o pessoal da Família Adriel que não deixa você vir? Não se preocupe, não precisa ter medo. Vou ligar para o Wilson daqui a pouco. Isso é um absurdo! — continuou a avó.
Dona Alves havia interpretado tudo errado.
— Está bem, vovó, eu irei com o Erasmo mais tarde. — respondeu Clarice, mordendo o lábio inferior ao olhar para ele, que a observava fixamente.

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